About mistake…

22/05/2012

Filho do rigor da esperança, ativa da flor que nasce do asfalto. Mulher forte guerreira, com o ensinamento da vida na mão. Pronto a exaltar o não-escolhido, a pena dura de não olhar para trás. Fonte absoluta da resistência, o amor nunca é fácil de achar. 

Todos juntos formam o corpo nobre e suado de poeira urbana, para além da magia que não existe no ponto zero. Dominados pelo medo, são guiados no escuro por almas pouco aparentes. Não sabem quem são eles, não sabem dar o próximo passo.

E é lá que a lei atua para o óbvio poder, que não sabemos sua forma e sim sua severa ação.

Filhos do pé descalço, ombros carregados, pau e ferro. Resistência!

Andando pela rua, assistindo as luzes irem e virem, num movimento extra-perceptivo que faz o Mundo girar. A lógica estampada para cada um, junto com a venda do ser estagnado. O correto, o estilo, o padrão estampado ainda mais em vertentes para serem absorvidas e aplicadas. É assim que nasce o sentido do que entendo por ERROR!

Atitude insólita, sem saber as dimensões. Pode nascer um corpo esticado ao chão, furado por balas do inimigo.

A aplicação da morte representada pela opressão, onde os políticos estão resguardados.

E a covardia oprime o popular, Niterói e o Mundo. Mas é na luta da esperança, continuar. Nosso corpo pesa uma tonelada.

Cicatrizes

08/05/2012

Hoje faço parte de um todo simbólico transcrito de memórias amarradas com os limbos do velho mundo onde as raízes tenderam crescer e só agora percebo toda a leveza do descobrimento porém desacreditado das coisas ruins que nos cercam onde estivermos por mais bucólico que pareço ser.

Eles não falam da natureza, não falam dos verdes horizontes. Falam das coisas reais.

Expresso do grito!

07/05/2012

Eu grito por dentro junto com vozes dissonantes nas horas do dia. Dust.

Penso mais que a sensação do acabado, posto fim numa onda de entregamento. E ponho meu corpo aberto a alma exposta, pensando no toque, assumindo a troca, gerando carinho.

Quando o expresso leva o corpo, mas deixa a alma, talvez tenha passado um ponto.

Mesmo quieto, falo mais da quebra, não é situação como fantasia em minha imaginação. Só que, falo do que?

Do grito harmonia vindo do som como matéria física que se desloca. Nesse pensar não cabe mais o remoer de não ter, aquilo que nunca chegou a ser teu. É busca do que passou no expresso desde noites passadas, seguindo seu trajeto interruptamente. Nele vem as vozes dissonantes que me tiram a paz do simples dia, fixando a imagem e o sonho, do que somente existe na minha cabeça!

É simples passagem. Não travou igualdade de sentimentos. Meu corpo dorme sem forças para olhar a janela. É nela que me vem toda a imagem circular donde piso. Nesse piso estão as situações do prazer e angústia, de conhecer a dor de um não.

a porta abriu o caminho da volta

24/10/2011

amanheceu às 11 horas da manhã, o despertador não tocou, ou tocou e não foi ouvido. ninguém mais dorme na cidade azul a não ser o pássaro do vizinho, que estranhamente não cantara até agora. 11:12 da manhã, antes de adormecer novamente, quis o café mesmo frio que se encontrava na parte externa da casa. o sol radiava forte fora da sombra, lembrando os dias de verão vividos sem compromissos e apenas se sentindo um estranho. isso foi o suficiente para não querer mais voltar ao último sonho e sim se preparar para escrever uma carta.

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quando você é estranho, apenas quer abrir a janela e esperar que a luz vá se embora, mesmo sabendo que a partir de agora nada será capaz de nos parar. sentado na cama, caderno e lápis na mão à espera da inspiração. sentado, quieto, olhando. o caderno ainda aberto. o lápis então toma sua posição e parte-se para a primeira parte da carta, três páginas de introdução, pois fazem mais de um ano que não se encontram. para ajudar na escrita, ligou-se o rádio bem alto ao som de um rock estranho que cantava ” waiting for the sun “. letras, frases, palavras se formaram na elaboração de uma carta simples, mas tentando carregar um sentimento carinhoso ao relatar os últimos meses da sua vida, relatos até mesmo pessoais, com esperança que aquilo tocasse o sentimento alheio e fizesse surgir conselhos sobre qual caminho tomar entre alguns. ponto final, envelope colado, correios como destino.

o sol ainda brilhava quente, agora fazia mais sentido o ” waiting for the sun “. o calor bateu forte na cabeça, escorria suor e certas imagens começaram a se formar. era necessário ir embora, aquilo fazia mal. 10 minutos e nada, as imagens surgiram cada vez mais complicadas, algumas pessoas caminhavam e não respondiam ao cumprimento dado. “são necessárias algumas cerejas”, virou-se e não encontrou mais o carro, acabara de ser roubado junto com uma “spanish caravan” que passara. na carteira ainda sobrara alguns trocos, sendo possível comprar algumas cerejas.

no jardim mais próximo as coisas melhoraram, na sombra, o calor foi passando, apenas sobrando a cabeça um pouco quente e alguns fios de cabelo extremamente molhados. a primeira cereja desceu muito fácil, o jardim era confortável, com uma vista ampla de uma cidade antiga, cheia de prédios antigos e bem ao fundo conseguia-se ver um lindo rio. sem falar nada, ouvindo poucas coisas, quis na verdade conversar com si próprio, num diálogo bizarro entre o mesmo pensamento, onde a pergunta era respondida pela própria pergunta. talvez o efeito da cereja alcançara o cérebro, essa era a intenção. quem queria estar ali, estava. sentado como os demais, olhando as mesmas coisas.

eram 20 horas e ainda havia luz iluminando um navio que atravessava o rio. porém aos poucos ia-se embora os últimos raios daquele dia quente e de certos significados para alguém que tinha em casa duas malas cheias e prontas para uma viagem. numa tentativa fracassada, ligou-se a câmera fotográfica, que devido a areia em seu zoom, não ligava mais, eram resquícios de uma longa jornada que vivera no grande saara. só que não podia ir embora sem um registro pessoal daquele dia de poucas horas, por isso saiu em busca de uma porta colorida que fizesse os sentidos ficarem mais aguçados a ponto de encararem o horizonte como algo próximo da visão e das mãos.

fez-se noite. alguns pássaros começaram seus cantos, uma linda melodia. na igreja ao lado o organista não quis tocar a música religiosa e não pensou duas vezes em fazer um dos mais bonitos solos ouvido. por acaso, a igreja entrou em choque, o padre numa atitude de pânico derrubou algumas velas acessas sob a toalha do altar, o que foi suficiente para se espalhar entre as outras toalhas e assim o solo do organista ganhou mais impacto, um verdadeiro “light my fire” ! mas não mais que isso. seguiu seu caminhar até um outro bairro, alto, como todos os outros, fixando cada detalhe com a ajuda da porta que se abrira diante de tantos horizontes. do céu escuro, lua e nuvens compunham o cenário de noite rara, entre escadarias e calçadas, ruas, largos, praças e jardins.

cada vez mais, portas se abriram, sendo fácil o não sentido, era estar como perdido. lembrar do passado despertou a ira do dragão, que se fez presente no exato momento do futuro que estava por vir. da última figueira vista, o pássaro de metal surgiu deixando o dragão atordoado, voltando para o passado, calmo e quieto em seu sono. e então o pássaro de metal foi muito útil e usado para a volta à terra. assim se sucedeu, no dia seguinte, como esperado “this is the end, my only friend”.

exercício

14/09/2010

Esperando Godot foi lido anos atrás. Grande referência para as idéias, uma delas surgiu no meio da aula de Planejamento. Coisa de cinco minutos estava ali, mesmo estando incoerente e novato. É um exercício, é uma tentativa.

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Heitor e Ezeu estão sentados na beira de uma estrada deserta de chão de terra, olhando de um lado a outro. O diálogo se reveza entre Heitor e Ezeu.

- Quem cria o dia de amanhã?

- Eu acho que é o Golum.

- Mas quem é o Golum?

- Golum é o responsável pela criação do dia de amanhã.

- E se Golum se esquecer da criação?

- Acho difícil, já que ele só faz isso desde antes de ontem.

- Ahhh, talvez tenha alguma coisa errada nessa história.

- Por que?

- Porque antes de ontem não teve a criação do dia de amanhã.

- Hmmm, é mesmo. Tinha me esquecido. Então Golum se esqueceu desse primeiro dia.

- É mesmo, mas amanhã ele não se esquecerá.

- Ah é? Por que?

- Porque ele sabe o que faz, seu trabalho é esse. Não vai se esquecer.

- Mas antes de ontem ele esqueceu.

- É que ele deve ter se enganado, era seu primeiro dia.

- É. Mas me diga, como era mesmo a criação do dia de amanhã antes de ontem?

- Não me lembro. Engraçado isso né, estamaos aqui sentados faz um tempinho e o dia parece nem passar.

- Claro que passa. Hoje mesmo teve a criação do dia, você não viu?

- Hmmm, não vi. Como foi?

- Foi assim, Golum veio e criou.

- Tá, mas isso a gente já disse várias vezes, eu quero saber como foi.

- Sei….mas eu também não sei como foi. Só sei que quando cheguei aqui já tinha sido criado.

- Criado o que?

- Criado o dia!!!

- Ahhh é. E amanhã, como será a criação do dia?

- Oh! Chega disso, já falei várias vezes, é Golum que cria e ele sabe como faz e não vai se esquecer.

- Tem certeza?

- Tenho sim. Eu já vi várias vezes isso acontecer.

- Mas você disse que foi desde antes de ontem que Golum começou a criar o dia de amanhã. Como pode ter visto isso várias vezes?

- É porque eu conheço Golum.

- Caramba! Você o conhece?

- É……..acho que sim.

- Ahhh, que legal. Deve ser legal conhecer tudo isso.

- Conhecer tudo isso o que?

- Puuxa….não sei. Isso que você está me falando.

- Ahhh! Vamos falar do dia de ontem?

- Melhor não, eu não lembro do dia de ontem.

- É mesmo, eu também não.

(Silêncio)

- Quer uma maçã?

- Não, obrigado. A partir de hoje só como amanhã.

- Hmmm, então tá. E ai, vamos esperar o dia melhorar ou vamos fazer o dia melhorar?

- Estou bem aqui, não quero dar nenhum passo. Vamos esperar mesmo, daqui a pouco alguém aparece e nos livra daqui.

- Poxa, será mesmo? Queria conhecer outro lugar.

- Para quê? Você não vai entender nada. É tudo confuso e as outras pessoas são….loucas!

- E a gente não é?

- Claro que não. Somos os únicos que conhecemos Golum.

- Mas eu não conheço Golum, quem o conhece é você!

- Conhecerás amanhã, pode aguardar.

(Silêncio)

Heitor e Ezeu ficam de pé e olham de um lado a outro. Ezeu come sua maçã e joga o miolo fora. Voltam a se sentar. Heitor rói as unhas e cospe ao vento. Os dois ficam quietos e sentados, esperando o dia de amanhã e a chegada de Golum.

Minha viagem a Veredas, meu sertão

07/07/2010

“Óh Veredas, meu sertão”

Dentro de mil páginas contarei a viagem de minha vida e meus sete irmãos. Será preciso entender que existirão partes desse relato em mil lugares. Um deles ficará aqui.

Meu sertãoVeredas era algo abstrato a minha pessoa. Já meus irmãos, conheciam uma espécie de bicho que era de lá. Mesmo sendo apenas isso o nosso conhecimento pelas terras Veredas, resolvemos vender nossa vaca, nosso rádio e nosso cabrito para pegar um ônibus e ir até Veredas, meu sertão.

O céu estava azul , sem nuvem alguma. Era esse dia a partida. Com malas postas, soubemos que ninguém vai a Veredas e por isso não havia nenhuma condução. A não ser, mulas! Eu e meus sete irmãos, não pensamos uma sequer vez. De mula, partimos a grande terra Veredas.

Capítulo 01 (de 03)

“O sol forte. O sol forte.”

A água foi-se rápida demais. Só sobrara a rapadura. Tínhamos andado pouco mais de sessenta quilómetros e meio, o sol era muito forte. Um de meus irmãos começou a ter imaginações demais e passou a falar de jagunços mortos naquele caminho. O único jeito de contiuarmos nossa viagem sem histórias de espíritos, foi dando-lhe um tabefe e dois pedaços de rapadura.

Foi escurecendo e o jeito foi parar à beira de um riacho. A paisagem nos fascinava muito e a noite só conseguimos falar das estrelas. Um de meus irmãos, sem ser aquele que vira espíritos a tarde, disse que estava vendo o caminho do dia seguinte pela posição das estrelas. Veredas era nosso destino. Sol posto, dia claro novamente e água abastecida nos nossos cantis. Óh Veredas, espere por nós.

Nosso caminho era maravilhoso. Natureza conversando conosco em todos os níveis. Passávamos por montanhas, pastos, rios, cachoeiras, grutas e um pôr-do-sol glorioso fechando nosso árduo dia em cima daquelas mulas.

Capítulo 02 (de 03)

“Chegava a terra Veredas. Ninguém sabia por que ia, mas sabia da romaria.”

Pelos meus irmãos, estávamos pertos e chegaríamos naquele mesmo dia. Era nesse dia que encontramos e falamos com o grande Corisco, deus e diabo na terra do sol. Foi ele que nos deu a passagem para continuarmos nosso caminho à Veredas. Era logo ali.

Eis a chegada a Veredas, meu sertão. Meus irmãos disseram que sabiam que aqui era Veredas pela posição do sol, mas eu nem percebi nada. Depois de passar um pequeno riacho, senti uma coisa estranha. Meus olhos saltaram para fora do meu corpo e o brilho da minha alma aguçado. Estava em Veredas, meu sertão.

Capítulo 03 (de 03)

“O chão rachado de cor e alma. O sol, o sol. Terra e terra.”

Descemos das mulas e pegamos nossas bolsas. As mulas praticamente caíram ao chão pelo excessivo esforço da paisagem árida e montanhosa. Não havia nada, a não ser o sertão.

Isso era apenas o que estava ali, o que sentíamos era algo muito maior e de outra dimensão. Andamos a diante, só que agora, a pé. O sol ainda era muito forte, nenhuma árvore para sombrear.

“Nessas terras viveram poucas pessoas. Eram pessoas simples, mas muito místicas e apenas por dialogar com o sol e a terra”, um de meus irmãos disse. Ninguém comentou nada. Aos poucos nos distanciamos, mas sem perdermos de vista. Andávamos e andávamos na mesma paisagem. Estávamos hipnotizados, certamente.

“Óh Veredas, meu sertão. Por aqui passeiam espécies que lá nem gorjeiam. Terra de amargo suor, que depositou a sabedoria do sertão. Povos que se foram e voltaram. Nada dá, nem sobrevive. Óh Veredas, meu sertão, como seria bom se fosse nosso Mundão.”

Chegava a noite, amanhecia novamente, só andávamos na mesma paisagem e na mesma direção. Por aqui ficamos, fazendo parte dela mesma, Veredas meu sertão.

Apêndice:

A partir desse relato, deixarei outras partes dessa viagem em mil lugares. Veredas é a terra onde ninguém sai e poucos entram. Jogo minhas folhas ao vento, que em Veredas sopra por todo momento.

Valsas

14/06/2010

Zezinho tinha uma sanfona. Tocava lindas melodias sobre o azul do céu.

Altamiro tinha um clarinete. Tocava lindos choros sobre o verde do campo.

Tião tinha uma viola. Tocava lindas modas sobre a presença de Deus.

Um dia eles se encontraram e tocaram lindas músicas sobre seus sonhos.

Elas foram chamadas de as três Valsas.

Valsa do Minuto, Valsa do Tempo e Valsa da Vida.

Desde então, suas vidas não foram mais as mesmas.

Assim que acordavam, pensavam sobre as músicas.

O sentimento era de amor e dúvida. Os sonhos viraram músicas.

Mas músicas não podiam ser sonhos.

Zezinho quase sem conseguir dormir, foi atrás de Tião. Que tinha ido atrás de Altamiro.

Conseguindo se encontrar, os três se puseram a falar.

Depois de muita conversa, chegaram à conclusão que seus sonhos eram músicas.

Tudo foi transformado em vida, tempo e minuto. E a cada sonho, novas músicas.

O azul do céu, o verde do campo e a presença de Deus faziam parte das três valsas.

As valsas da alma.

Treze dias em Istambul

12/06/2010

Exercício realizado na Oficina de Narrativas, disciplina de Estudos de Mídia, da UFF.

A primeira parte do texto é de autoria minha, Leonardo. A segunda, é de Viviane Roux.

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“Já faz treze dias que estou em Istambul. Era noite quando me trouxeram do aeroporto, sem dizer para onde estávamos indo. A partir do momento em que saí do aeroporto, percebi que estava onde queria. As luzes, as ruas, as pessoas, tudo me veio à cabeça como aquele ano. Mas desta vez eu sabia que seria diferente, por mais que não soubesse onde estávamos indo, sabia que estava onde queria.

Esses dias que se passaram foram um tanto doloridos. A busca não tinha resultado em nada e o máximo que consegui foi ir até o bar de Islail, para lá tomar carbel e deitar-me olhando para o céu.

Hadija me deixara inquieto desde aquele ano; sua cítara estava dentro de mim e sua sonoridade era minha música desde então. Pedia aos taxistas para me levar a qualquer lugar. Pelo caminho, olhava atentamente cada ponto dessa cidade anormal em busca do prazer que tinha tomado minha consciência.

Era noite quando decidi sair a pé pelas vielas do chamado centro comercial. Já não agüentava mais cheirar ácido da minha roupa que não trocava há dias. Sentia que aquele lugar me levaria a Hadija e sua cítara. Entrei em um bar que era como um cabaré de lindas mulheres turcas e ali sentei para beber novamente carbel. Ao meu lado, um marroquino me ofereceu haxixe em troca de pouco dinheiro. Animei-me com a idéia e fomos para fora do bar pegar a mercadoria. Entramos no seu carro e rodamos quase toda a cidade para pegar este verme que me levaria até o céu. Por ironia do destino, fumamos dentro do carro e o que aconteceu foi um total abandono daquele homem, me deixando num canto da cidade desconhecido por mim. Agora era eu e minha cabeça. Que mal conseguia organizar as idéias, porém o corpo ainda clamava por mais. Era esse mais apertado na garganta de qualquer um que estava ali numa praça. Lembrei-me da noite de 2007, quando conheci aquela mulher e sua sonoridade. A mesma desordem mental me ocorria, misturada com o desejo de ir adiante, buscar minha cólera por tê-la deixado. Agora exatamente, sei o que falar sobre meu ser. Impaciente, possuído, apenas habilitado a pensar. O que soa estranho é esse eu que fala, mas o eu que escreve, ou melhor, o eu da noite. O momento. Ali fiquei por horas.

Quando amanheceu, percebi que estava sem dinheiro algum, contudo me encontrava em um lindo vale montanhoso, na beira de um riacho. O lugar me trouxe uma sensação incrível, era como se a melodia da cítara estivesse a poucos metros.

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As cores daquele lugar eram incríveis. Se Monet o tivesse visto, teria deixado a França. Fui até o riacho e com a mão em concha busquei um pouco de água. O líquido gelado chegou ao meu estômago e vomitei. Uma gosma clara com cheiro de carbel. Fui tomado por uma sensação incrível, convencido de que eu só poderia estar aqui, mesmo sozinho, mesmo sem dinheiro.

Num impulso, me joguei no riacho e, depois do choque do meu corpo quente com a água fria, vomitei de novo. Vomitei o haxixe, o avião, o taxista, Hadija e sua cítara, meus enganos, as mentiras e toda aquela saudade. Sentei tremendo de frio até o vento me secar.

Que direção tomar quando não se tem direção? Direita ou esquerda não importa, ninguém me espera, ninguém sabe. Somos eu e minha procura. Segui o curso daquelas águas transformadoras e me deparei com um velho sentado. Maltrapilho e de barba cinza, parecia que estava ali há anos. Perguntou-me com sua voz fraca:

- Aonde vai, forasteiro?

- Não sei, embora sinta que falta pouco para chegar.

Quando estava me virando, o velho atirou umas folhas que estavam em suas mãos na água e disse:

- Como você, as folhas não sabem para onde vão, mas continuam a seguir seus destinos e eu lhe mostro onde é – apontou para o horizonte.

Intuí que ali o riacho devera desembocar em um grande lago ou talvez no mar – embora o riacho faça curvas, caia em cachoeira ou se abra em afluentes. No final de tudo, é para lá que elas devem ir.

Permaneci um tempo pensando no que o velho dissera enquanto tomava uma difícil decisão: ou continuava ali, afastado da cidade, mas perto da paz espiritual que o ambiente proporcionava, ou voltava para a cidade aonde a possibilidade de encontrar Hadija era maior.

Um pássaro amarelo-claro e seu canto me lembravam a cítara. Segui com os olhos e fui andando atrás dele. Às vezes o perdia de vista. Aos poucos, umas casas iam surgindo. Voltei para o calor de Istambul. O canto do pássaro foi se tornando imperceptível, misturado aos sons da cidade. De repente, o perco de vista. Olho para todos os lados até que ouço um som familiar. Corro, corro demais, corro. Primeiro, vai as mãos, acariciando as cordas. Depois, o cabelo escuro e, por último, os olhos marejados. Um sorriso de saudade, mas ficamos onde estávamos, precisaríamos esperar um pouco mais. Hadija precisava acabar uma música.”

Sou um cordeiro

08/05/2010

Acabei de descobrir que sou um cordeiro no meio de um rebanho bem grande.

Lá me encontro sem pensar em nada, apenas faço o que todos fazem e só fazemos porque alguém nos manda fazer. Percebi também que ao ser um cordeiro conduzo minha vida de maneira tranquila e decente. Ajo da melhor forma e aos costumes corriqueiros de quem é um cordeiro dentro de um rebanho.

Por que tentar sair daqui ou tentar não fazer o que me pedem? Se no fim das contas serei reprimido e com certeza voltarei ao rebanho do qual tentei sair. Até porque é assim que funciona, se não fossem assim talvez nem estaríamos aqui. Alguém sempre tem que mandar e outro obedecer. E sempre quem manda é o que tem mais poder. Pois é essa pessoa que faz tudo funcionar. E se não funcionar, tudo pode virar uma desordem. Apesar que a desordem é uma coisa interessante, mas não vem ao caso nesse momento. Agora estou a falar de minha descoberta.

Bom, acordo e já vou comer, todos nós cordeiros temos uma ração pastosa e sem gosto. Sempre há um que come demais e acaba passando mal. Esse, coitado, é taxado como fora do padão e levado para fora dali. No resto do dia ficamos no mesmo lugar, no pasto, cercado por cercas de arame e estacas de madeira. Certa hora do dia alguém com mais poder que nós leva-nos para um passeio no campo. É nesse momento que nos sentimos melhores pois conseguimos andar mais e com mais espaço para se deliciar na grama. Mas é nessa hora também que vemos como somos cordeiros no meio de um rebanho. Bate a sensação de estarmos sendo vigiados e a sensação de ilusão daquele passeio.

Depois de vários dias nós não conseguíamos mais pensar, era só comer e ficar ali parado. Contudo houve um cordeiro entre nós que surtou:

- Ahhhh!!! Quem são vocês? Porque ainda estão aqui? Não quero mais ser um cordeiro dentro desse rebanho acomodado.

O silêncio se instaurou e todos olhavam fixos para esse cordeiro, que depois fora taxado de rebelde. Outro cordeiro tentou falar algo:

- Mas, mas, e… você é igual a gente, não pode…não pode mudar isso.

O cordeiro rebelde se pronunciou em tom pedagógico:

- Vocês não vêem essa situação de merda que estamos passando, todos amontoados, achando que o normal é ficar assim, sem conseguir andar e pensar. E ficamos recebendo ordens dessas pessoas que nem são melhores que a gente, a única coisa é esse conceito de poder que lhes foi atribuído. Que poder é esse? De mandar a gente fazer o que eles querem? Eu só espero que vocês não fiquem acomodados e amanhã quando formos dar nosso passeio pelo campo, fugimos todos correndo para qualquer direção mas depois nos encontramos no lago sul para formarmos um grupo e irmos libertar outros cordeiros presos.

O silêncio foi imediato novamente mas rompido pelo fervoroso ânimo de todos cordeiros. Depois desse se pronunciar, outros também vieram a falar, um atrás o outro e todos numa energia forte e intensa.

No dia seguinte acordamos, comemos e fizemos as mesmas coisas. Eu nem me lembrava do dia anterior e pelo que percebi ninguém se lembrava. Ao irmos para o pasto, começara uma música estranha e com vozes sussurradas, dizendo “Viva a ordem”. No meio do pasto estava o cordeiro rebelde de ponta cabeça, preso por uma corda pela pata traseira, pingando muito sangue que saia de sua boca. Todos se assustaram e eu fiquei em choque com tanta violência. Será que aquilo ocorrera devido ao seu discurso do dia anterior? Certamente. Aquilo me arrepiou a espinha e me fez acreditar de vez que a melhor coisa na vida era continuar sendo um cordeiro no meio de um rebanho. Se tornar cético de tudo e apenar viver aqui, sem pensar nas coisas do Mundo.

Ser cordeiro não é tão ruim. Recebemos ordens, mas quem hoje não recebe? Minha vida pode ser tranquila aqui e assim está sendo. Também pude perceber hoje que não só o cordeiro recebe e cumpre ordens vindas de alguém com mais poder, até o ser humano, ser mais evoluído que nós passam por isso. Então se é assim que funciona, porque estar aqui escrevendo, se no final sou apenas um cordeiro dentro de um grande rebanho, participando daquilo que chamarão de fim do Mundo.

Ouvido pensante

26/02/2010

Tudo me pareceu triste ontem.

A Lua era cheia e sussurrava seu canto mais limpo. O sussurro era de tal sentido que mal me chegava aos ouvidos, porém era entendível seu brilho durante aquela escura noite.

O berro de um carro foi diferente do que estava sentindo, era um grito alto seco profundo. Alguns moradores até saíram de suas casas para assistirem aquela espécie de ópera. Era época do Concerto do Universo, todos estavam afinando seus instrumentos, rúidos e vozes.

Já eu e meus companheiros estávamos a sussurrar com a Lua, o som mais sutil que podíamos. O canto era limpo e se traduzia em uma homenagem aos Povos da Terra.

Shim Abilu Sshhiimmm Oggo…

Dicikl Ghiuaa Trhisssimm…

O grande maestro estava para chegar em algumas horas e todos sentiam a necessidade de ensaiar mais.

Aviões, rádios,

caminhões,  respirações, falas,

pianos, serrotes, motos, passos,

gritos, ar condicionado,

começaram devagar.

Não sei por que eu e meus companheiros não gostamos de ensaiar com eles, estávamos presente para ficar mais tempo sussurrando levemente. O prazer foi tanto que todo tipo de som foi facilmente desaparecendo e o que ficava era nosso canto sussurrado.

A tristeza foi se superando e a leveza de cada sussurro tomava mais forma.

Ssshimm Bluuc Soanaavii…

Onnip Deehk Sooannavii…

Shimsh Nossu Sshiimm…

Eis que o burbilhar dos passáros anunciavam a chegada do maestro e a despedida da Lua, pois agora ela sussurraria em outra parte do Mundo e o Concerto do Universo começaria.

Poucos entenderam seu sussurrado, o canto mais limpo em homenagem aos Povos da Natureza. Começava assim o Concerto do Universo, um pouco atonal, descompassado, perdido e desorganizado.

Buzinas, falas,

Aviões, chiar da vassoura,

Torneira de água, rádio,

birbilhar dos insetos…

RKTWYBDHGTSHCDFFNPQSP…

STHRKLMCDBTGDPQRQ…

Meu ouvido ficou pensante.


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