Curadoria FIIK 2015 – Festival Internacional de Cinema Independente Kino-Olho

14/09/2015

O FIIK 2015 foi realizado entre os dias 03 a 06 de setembro no Centro Cultural de Rio Claro – SP. Nessa edição ocupamos o teatro principal montando uma grande tela e sistemas de projeções de imagem e som bem legais, acomodando um público bem maior que nas edições passadas. Foram exibidos 13 curtas na categoria ficção, 09 curtas na categoria documentário e 06 curtas no panorama Kino-Olho (filmes produzidos pelo grupo). Mesclando diferentes estilos, linguagens, estéticas, temáticas, técnicas, visões de mundo, reflexões etc. os filmes selecionados esse ano surpreenderam a todos. Como parte da curadoria que assistiu os mais de 350 filmes, selecionando e montando a programação, me vi transbordando de ideias e reflexões sobre tudo aquilo que estava analisando. Por isso propus a mim e a outra parceira da curadoria, Cláudia do Canto, escrevermos um texto sobre nossos pensamentos e pontos-de-vista que guiaram a direção de nossa seleção. Abaixo compartilho nossos textos na íntegra, pensando principalmente no retorno aos realizadores e realizadoras que submeteram seus filmes ao nosso festival. Achamos importante essa troca, que vai além de transparecer o perfil artístico do festival, mas também suscitando o diálogo com os filmes produzidos, com os espectadores que frequentaram o festival, nossos estudos, processos criativos e amadurecimento do fazer cinema. 

O curta-metragem ganhador da categoria ficção foi o “Ensaio sobre a minha mãe” (2014), de Jocimar Dias Jr. do Rio de Janeiro (RJ). E na categoria documentário, o curta-metragem “A Clave dos pregões” (2015), de Pablo Nóbrega do Recife (PE).

Texto de Léo Bortolin:

“A estética do cinema é, pois, o estudo do cinema como arte, o estudo dos filmes como mensagens artísticas”.[1]

“Arte revolucionária deve ser uma mágica capaz de enfeitiçar o homem a tal ponto que ele não mais suporte viver nesta realidade.”[2]

Resolvi escrever esse texto para organizar um pouco os pensamentos e reflexões sobre o meu trabalho na curadoria, pela segunda vez, do FIIK (Festival internacional de cinema independente Kino-Olho). Além do mais, vejo com certa importância o estabelecimento da linha estética/analítica que segui fazendo esse trabalho. Não tenho a intenção de escrever sobre como fazer um filme, muito menos achar que o que escrevo é pura verdade e deve ser seguido. Estou tentando de alguma forma expor minhas últimas indagações sobre esse fazer cinema e como ele é percebido por nós, espectadores e realizadores. Por isso, me coloco em constante processo de questionamento, amadurecendo dentro do possível o meu próprio ser artista.

Na edição anterior do festival fiquei apenas nas conversas sobre essa experiência, não me atentando para a elaboração de um simples registro do processo, muito por conta da novidade desse tipo de relação e contato com os filmes. Lembro-me que a preocupação maior era ter a consciência que a partir das nossas escolhas estaríamos definindo partes do perfil do festival. Já esse ano percebi-me um pouco mais seguro para o trabalho, até porque a bagagem da pesquisa de mestrado que desenvolvo tem ampliado muito minha relação com o cinema e com outras linguagens artísticas. No fim das contas, ao receber 375 filmes de várias regiões do Brasil e do Mundo, estou em contato com uma parcela do panorama da produção cinematográfica jovem e com isso uma noção especial de como andam as visões de mundo, conflitos, abordagens estéticas e modos da realização de filmes. Ponto interessante da recentíssima safra de curtas-metragens, onde a maioria são de realizadores jovens, é entender que um filme não nasce sem um mínimo de reflexão social, econômica, política e estética. Contudo eles podem e nascem, mas sem a compreensão que existem fenômenos distintos que pensam e articulam o objeto-filme. E por isso acabam se limitando à subordinação de padrões tanto das técnicas quanto na postura frente ao mundo. O filme é o lugar do cinema e de muitos outros elementos que nada tem de propriamente cinematográficos.

É uma relação talvez complicada, onde o emocional tende a virar segundo plano e uma concentração mais fria e distante são necessárias. Dessa maneira você fica mais atento aos modos de se fazer cinema, os usos e desusos de todo um aparato técnico, de linguagem, regras e mil referências. Esses contatos de análises não são separados, chegam a ser em tempo real – por que tal corte com mudança de eixo e desenho de som me faz sentir a veracidade do filme? Ou, decifrar a narrativa para tal sentido? Nos deixamos levar pelo estado emocional em conjunto com todos elementos do áudio-visual que é o cinema, e isso se dá nas duas vias (elementos áudio-visuais que geram emoções). É instantâneo e vira uma série de exercícios críticos com a obra e consigo mesmo. Uma das coisas que mais repito com amigos é “a curadoria me passa uma ideia de considerar o que realmente não se fazer em um filme!” Certas abordagens temáticas (recorrentes) estão no campo da repetição e representação novelística, em todos os aspectos. A impressão gerada é que o estilo da novela televisiva brasileira formou e influencia muitos diretores. Não quero dizer que é ruim, mas está em outro patamar da produção de percepção do mundo. E é disso que o cinema fala o tempo todo, assim como as novelas, porém no cinema com artifícios muito mais instigantes pelo caráter de fazer da representação um fim artístico e expressivo em si mesmo. Assim, muitos filmes acabam sendo serviçais dos espectadores, dando a eles tudo de bandeja, caracterizando personagens dentro de estereótipos convencionais, didáticos em excesso ou monopolizadores de um mundo-umbigo. Não só as temáticas, mas os modos de uso dos elementos cinematográficos. Nesse ponto destaco particularmente o uso da trilha musical, onde percebo falta de sentido dentro da relação som – imagem. Quero dizer, incoerências do pensamento/estilo/composição das músicas com a imagem e narrativa. Tenho conhecimento de usos contrastantes, aliás considero como muito mais instigadores, contudo é perceptível que dentro desse contexto comentado não se tem essa noção, é muito mais instintivo a partir de padrões que estão instituídos por conta de processos de repetição. Não acredito em filmes contemporâneos que usam a trilha musical em mais da metade da banda sonora, sem uma justificação de proposta, apenas seguindo convenções simplistas de uso do som no cinema.

O cinema desse panorama de cinco anos para cá começa a transpor elementos e usar ferramentas de outras linguagens artísticas. E nesse sentido tem-se a chance de construir narrativas com diferentes percepções do espaço-tempo fílmico. Vejo que o potencial do suporte cinema são seus intercâmbios com as referências das artes plásticas e arte sonora. O que é o espaço fílmico? Seria apenas o que o enquadramento da câmera mostra? Não. Temos conhecimento e motivo para afirmar que essa redução do significado fílmico desqualifica o poder do espectador participar ativamente da obra.

Percebo assim que o estilo documentário passa por tal momento de forma mais clara. Esse ano recebemos boa quantidade de documentários que exploram interessantes modos de filmar e construir o real. As artes plásticas estão mais próximas quando pensada a estética do filme – cores, sons, composição (pintura, vídeo-arte, arte-sonora, instalação) – num tom de ato político*. Pois a formação da obra cinematográfica concebida a partir do conhecimento desse leque, possui cargas de transformação.

*(O ato político não se refere a questões de partidos e ideologias, muito menos em qualquer ideia extremista de direção de ideias. Ele se encontra na esfera da postura e sensibilidade do ser-humano frente às situações e responsabilidades da vida dentro da convivência coletiva. Tendo como suporte para isso os distintos elementos da arte e não da burocracia.)

Parece que nos filmes atuais há certa recusa de inspirações transgressoras, as produções estão apostando em certos padrões da linguagem, fazendo muito bem feito o “arroz com feijão” mas sem surpresa para o tempero. Por isso estivemos atentos aos filmes que chamavam a atenção, não para o novo, mas sim para as reinvenções das formas de realizações dos elementos que compõem o filme. Tudo pode virar filme, e como disse o diretor Kléber Mendonça Filho, os filmes acabam sendo sobre filmes e portanto esse trabalho é uma prática tão árdua e complexa (jogo duro!). O mundo carrega inspiração e certos acertos nos filmes tem a ver com a sensibilidade no jeito que vivem e conduzem as coisas. A escolha do retrato é meio caminho andado, mas só ele não traz o movimento preciso para ocorrer o impacto da experimentação e transformação. Apenas ter o aparato e saber filmar não basta, uma câmera na mão e uma ideia na cabeça infelizmente são para gênios. Filme é impacto com todos os sentidos da vida e chegar ao êxito necessita de estudos e amadurecimento. É arriscar o impensável e a abertura radical ao novo.

Os filmes selecionados têm em alguns aspectos elementos que vão de encontro à direção do pensamento da curadoria e também às pesquisas, estéticas e modos de produção semelhantes ao do grupo Kino-Olho. E ainda se inserem no contexto de experiência e investida para outros campos cinematográficos. E o mais interessante é que esses campos não são bem definidos e nem tão claros, mas estão aí para surpreender. Nesse sentido estamos sintonizados no cinema que experimenta o mundo a partir da diferença e não da repetição de padrões previamente estabelecidos. Pensamos e refletimos conscientemente as técnicas que o filme nos propõe, numa direção autoral das percepções da relação áudio-visual construídas.

E no fim das contas, o brega é tudo isso – sacanagem!

Agradecemos imensamente o envio e participação, infelizmente tivemos que deixar de fora bons filmes, o que nos deixam realmente chateados.

Parabéns a todos os filmes realizados e com muito mais entusiasmo aos selecionados, é um prazer exibi-los em nosso festival.”

Léo Bortolin – curador e programador FIIK 2015.

25/08/2015.

[1] A estética do filme, Jacques Aumont.

[2] Eztetyka do Sonho, Glauber Rocha.



Texto de Cláudia do Canto:

“Não pretendo realizar uma análise crítica dos filmes selecionados para o Festival de Cinema Independente Kino-Olho, mas sim contar um pouco da minha experiência enquanto espectadora que empresta a visão de curadora do FIIK.

Não sou formada em Cinema, me formei em Jornalismo, mas tenho minha trajetória profissional muito ligada ao Grupo Kino-Olho, o qual faço parte desde o primeiro FIIK, em 2009. Atualmente, faço mestrado e pesquiso o modo de produção do Cinema Caipira, o cinema desenvolvido no interior do estado de SP que visa explorar o cotidiano do caipira.

Desde então, muitos têm sido meus questionamentos sobre arte, cinema e filosofia. Desta forma, avalio a experiência da curadoria do FIIK como uma atividade bastante importante, por me possibilitar entrar em contato direto com o que têm sido produzido nacionalmente, o que tem acrescentado batante para minha concepção artística e como pesquisadora. Porém, esta é uma concepção que nunca se encerra, está sempre em construção.

Alguns dizem que um bom filme é aquele que começa com um bom plano, outros dizem que é aquele que tem um bom roteiro, outros dizem que é aquele que tem uma boa fotografia. A verdade é que todas estas qualidades somadas podem não resultar em um bom filme.

Lembrando o diretor de cinema do Kino-Olho, Jp Miranda Maria, ao ligar uma câmera o cineasta se depara com a imagem pronta da realidade e seu principal desafio é compor este quadro de modo a transmitir um sentimento. Para transpor a barreira do que está pronto ali no visor de sua câmera, ele precisa saber que existe um conjunto de imagens que se conectam com aquela, através de fios de experiências no espaço e no tempo. Por isso, um diretor precisa pensar muito antes de apertar o Rec de uma câmera.

Bom, quando iniciei a curadoria, havia me programado para assistir a 20 filmes por dia, no entanto, esta meta caiu por terra em menos de uma semana. Sim, o ritmo ficou mais lento, pois cada filme de sua maneira particular, me incitava um sentimento diferente. Passar pela experiência em cada história, pela loucura de alguns personagens e descobrir a cada cena que você é também humano, além de avaliador, isso tudo era gostoso e ao mesmo tempo desgastante, me mudava de lugares dentro de minha na casa tentando encontrar algum conforto nestas histórias, mas no final da noite estava zonza e com dores de cabeça. Por quê alguém deveria gostar de passar por algo assim?

O fato é que os filmes que selecionamos para a programação do FIIK não pretendem trazer um conforto para o público, como os conteúdos que encontramos ao ligar nossa televisão em casa. Mas sim, indagar e questionar o ser humano em suas certezas, desestabilizar aquilo que temos como pronto.

Quando me encontrei com Léo Bortolin, membro da curadoria e também companheiro de equipe das produções do Kino-Olho, começamos a citar os títulos dos filmes que mais gostamos e notamos muitas semelhanças na seleção, isso provavelmente por sermos do mesmo coletivo e termos uma proximidade na busca de certos conceitos estéticos.

No entanto, sempre voltávamos em filmes que mexiam de modo particular com cada um. Lembro por vezes de o Léo dizer: “Cláudia, e este aqui? Eu estou vendo algo ali que ainda não sei explicar, mas gera algo diferente” e por vezes eu respondia “Bom Léo, se você está vendo…” e vice e versa. Respeitamos e soubemos ouvir um ao outro, até chegarmos a um consenso após revermos várias e várias vezes os que tínhamos dúvida se entravam ou não na programação.

Por fim, decidimos optar por aqueles que iam de encontro com as propostas estéticas do coletivo Kino-Olho, mas estando sempre abertos para cada nova experiência que se propunha ali dentro da tela a explorar novos caminhos na linguagem audiovisual.

Creio que o cinema, embora seja a arte da imagem e do som, ele está lá para mostrar um sentido que está sendo suscitado pela imagem e pelo som, mas não está neles, pronto, acabado, está também em seu espectador. Se um diretor pretende que seu espectador veja aquilo que ele vê, ele não estará promovendo encontros, ele estará matando o cinema! Por isso é tão importante que esta arte seja compartilhada.

Assim, os filmes que compõem esta lista do FIIK, convidam os espectadores a moverem seus corpos e a pensarem a experiência do cinema como elemento indissociável à vida. Onde a experiência estética encontra a experiência do sensível.”

27/08/2015 – Cláudia do Canto – curadora e programadora FIIK 2015

Maiores informações podem contactar por email: leonabatera@gmail.com ou: facebook.com/leonardo.bortolinbruno

E também: kinoolho

FIIK 2015

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6 anos atrás, fazíamos um filme

25/08/2015

Depois de anos sem acessar e publicar nesse blog, recebo um grande presente que tem tudo a ver com o nascimento desse espaço para ideais. E por isso retomo o dito qual à vida, se juntando aos registros passados de um tempo muito especial e marcante.

A querida Dora Maria me mandou um texto-crítica sobre o filme Não Existem Profetas (2010), minha primeira experiência na realização cinematográfica. O filme é uma ficção média-metragem produzida e filmada em 2009 como livre-iniciativa dentro da escola de cinema da UFF-RJ. Filme mega colaborativo, colocou em prática parte dos estudos e discussões sobre o cinema e o modo de fazer cinema. O resultado pode ser visualizado aqui: https://vimeo.com/95339707

O filme chegou a participar de alguns festivais, entre eles o “Mostra do Filme Livre”, “Festival Brasileiro de Cinema Universitário” e ganhou o prêmio de melhor filme da “Mostra Cine Trabalho” em 2011. Caio Miranda Makakai (diretor de fotografia) também escreveu algumas considerações sobre o filme: http://cogucameras.blogspot.com.br/2014/05/nao-existem-profetas-media-metragem.html

Leia abaixo a crítica de Dora Maria:

O PROFETA FILME DE CINEMA.

A história: um rei que numa determinada conjuntura exerce um poder material, psicológico e ideológico sobre seus servos, o mesmo pratica atos autoritários. No fim do roteiro um visionário revolucionário elabora um “motim” e mata a majestade pela liberdade do povo.

Não se trata de uma história original por abordar temas como a desigualdade humana no campo econômico, político, ideológico e existencial. Ela utiliza se de alegorias que se encontram no imaginário da sociedade sobre o contexto da era medieval. E que até hoje reside no inconsciente coletivo através das histórias de contos de fadas, adaptadas aos moldes contemporâneos ou não.

Porém tudo é forma. E o que deixa o filme com o tom de originalidade são os elementos da linguagem cinematográfica utilizados. O filme tem um tom de que não se sabe até que ponto a (falta de) estrutura da produção conduziu a escolha estética ou ao contrário, a lembrar de que se trata de uma produção estudantil e se entende que o espaço de experimentação da linguagem dos autores é maior.

Sem ignorar as questões que envolvem o cenário de produção cultural nacional, como suas dificuldades e conquistas diante de políticas públicas cinematográficas versus produções independentes. Resultados ainda assim de uma inexpressiva ação em certos pontos de produções isoladas, se não margeadas no âmbito do que se refere as produções que ditam o público das salas de cinema. Neste momento ao falar do filme tema, o assunto torna se secundário. Pois o nível de maturidade e certa seriedade “sarrista” de produção chamam mais a atenção.

O nostálgico primeiro plano que remete à ouvinte esperançosa multidão que segue o profeta proferindo “E o sertão vai virar mar, e o mar vai virar sertão”, nos abre um leque de grandes e importantes referências cinematográficas nacionais. Entretanto, é essencial afirmar que a leitura dessas referências podem apenas existir das subjetividades de quem o assiste e pensa sobre a obra discutida. Assim como essas mesmas existem em decorrência das vivências do público e seus signos individuais. Que implica a democracia ser uma das características das intervenções artísticas.

Da impressão de uma legião de fiéis andarilhos, descobre-se que os personagens são servos de um rei ditador. Eles são obrigados a trabalhar na reconstrução material de um reino. E este cenário se concentra na estrutura da construção de um prédio, que a princípio visualmente nos remete a um histórico de especulação imobiliária de um espaço ambiental. O resultado disto é uma arquitetura de mau gosto estético e ideológico: andares de cimento cinza, que na fotografia muitas vezes essa cor expressa um duro e frio exagero de sentimento perdido compartilhados pelos personagens: submissão, liberdade, amor, deleite e o próprio sentido.

Mas ao adentrar no contexto real de produção e direção do filme, algumas perguntas sobre certas escolhas começam a serem respondidas. O cenário, cuja escolha torna a obra na sua totalidade, exerce um papel além de seu aspecto funcional – como todo estudante ou realizador de cinema descreveria o olhar para com os espaços que os ocupam, cada canto da cidade adquire a poética e se torna uma escolha de enquadramento para uma cena. Considerando esta questão e caminhando para além da decupagem, este espaço registrado em construção se assume posteriormente como Museu Petrobrás de Cinema, de autoria do arquiteto Oscar Niemeyer.

Portanto, a obra se aporta dentro do cenário cinematográfico nacional, com todas as suas importâncias formalistas, como um registro histórico de um espaço sifinificativo para o cinema autoral nacional e estrangeiro.

Sendo assim podemos listar alguns filmes na história do cinema mundial que fazem alusão a própria linguagem. Entre eles “O Acossado” de Jean-Luc Godard ao questionar a forma vigente de se pensar cinema, ele utilizou o recurso do corte seco, que resultou entre tantas questões algumas mudanças da relação entre a obra e o espectador.

Cantando na Chuva” de Betty Comden e Adolph Green que conta a trajetória da inserção do Som Direto nas produções cinematográficas, dentre as novas possibilidades narrativas e conceituais que o som poderia proporcionar no final de década de vinte.

Um outro exemplo seria o filme “Lisbon Story” do Wim Wenders. Que conta a história de um alemão que viaja até Lisboa para trabalhar no som de um filme, porém durante a história o técnico de som não encontra o diretor do projeto. A partir desta circunstância ele começa a viver uma solitária descoberta sonora nesta cidade portuguesa. Independente da linguagem estabelecida, esse estado de espírito do processo criativo é bem exposto, portanto além da discussão da própria linguagem vigente, existe a reverência do próprio ato como necessidade da expressão do artista. Registros que estiveram além do cinema, como na pintura, nos romances e com grande expressão na poesia.

Mesmo considerando esses tópicos formalistas e filosóficos em relação a criação da obra, o que faz o Não Existem Profetas se tornar um filme metalinguístico não é a escolha estética ou narrativa, mas sim histórica e que em específicos momentos poderá se tornar militante.

O que reforça esse debate é a presença do ator, cineasta, professor, dentre tantas atividades: militante da causa do cinema nacional independente, Sérgio Santeiro encenando o rei ditador.

Considerando essas questões discutidas de maneira expressiva no processo de leitura crítica do filme, a obra cria um certo volume que nos sensibiliza ao ponto de pensarmos nela pós exibição. De adentrarmos em busca de detalhes e insinuações da mensagem do filme.

Mas tudo isso é resposta de um fator importante do universo do filme: O absurdo. Essa característica se enquadra em todos os fatores da obra. Do ritmo da montagem a ação dos personagens. Os servos trabalham neste cenário urbano tão familiar em nosso cotidiano real, mas que no filme este espaço ganha o tom apocalíptico. O trabalho com as precárias enxadas que tentam tirar paraísos do duro cimento, expressam um exercício árduo e simbólico da imposição do rei.

O absurdo se revela nas aparições dos questionamentos dos personagens. Soa uma contradição da posição pela busca de mudança revolucionária daquela condição com diálogos niilistas. O apocalipse se demonstra de forma externa e interna. Neste primeiro pelo questionamento da relação de poder entre o rei e os servos, no segundo através da crise interna de fé no mundo e nos homens.

Como dito, é claro alguns elementos narrativos de contextos históricos que manifestam temas como poderes ditatoriais, e como resposta há uma sequência de intervenção artística de dois servos. Previamente o rei avisa do alto do estacionamento, sem antes da proclamação de sua vinda discusada pelo capacho e fiel servo, seu braço direito. Que anuncia de forma grotesca e irônica o discurso do rei. Suas vestimentas ridículas e gesticulações expressivas de uma classe média que projeta em seus atos submissos à ascensão de suas funções. Ele clama e o rei se aproxima anunciando uma peça de teatro de fantoches a ser realizada por dois servos, que no futuro próximo são reprimidos, acusados de subversivos.

A sequência do prólogo do espetáculo de fantoches é caracterizada por um ritual de vestígios espirituais. Uma transcendência xamânica com performances dramáticas da embriaguez dionisíaca, típica do teatro grego. O transe é induzido através da inserção de uma bebida preparada com ervas. Assim, o espetáculo começa.

A pouca plateia assiste de maneira abatida. Sentado atrás, o rei. Os fantoches se erguem: um diálogo entre uma flor e um pássaro profeta. O filme que já evidenciava tendências surrealistas e lisérgicas, se assume como tal.

Os planos que se resumiam em campo e contra campo, registrando a reação da plateia e o palco com os bonecos, se materializam em um outro ambiente. Agora há atores caracterizados de pássaro e flor. A decupagem oscila entre os planos dos fantoches e os atores encenando o mesmo diálogo, de maneira linear. A montagem imerge de maneira kafkiana à sensação de adentrar as camadas mais profundas da imaginação. A materialização dos fantoches para a encenação dos atores, coexistindo em outro ambiente e de diferentes composições, provoca a sensação de projeção da construção imagética da fantasia da história. O sentimento não é diferente de um sonho.

No final da peça os atores são acusados de subversão pelo rei. Mas a ideia de que se fica, é que o filme se auto declara, subversivo inato. E a plateia aplaude.

Alguns artistas e pensadores que se debruçaram a pensar e escrever sobre manifestações ou iluminações profanas, defendem a ideia de levar a embriaguez espiritual para a revolução libertária transcendendo o estado prosaico da realidade empírica (Richard Wolin). Principal busca e repulsa dos servos nesta história.

No fim da obra, a morte aparece como caminho certo da questão, e na leveza densa da existência a criação se completa e mostra a sua face mais pura. O filme fecha com o plano dos simples corpos – nus dessas pessoas sobre um plano terrestre.

Dora Maria. 18/08/2015

frame do filme (2010)

Frame do filme Não existem profetas(2010)

About mistake…

22/05/2012

Filho do rigor da esperança, ativa da flor que nasce do asfalto. Mulher forte guerreira, com o ensinamento da vida na mão. Pronto a exaltar o não-escolhido, a pena dura de não olhar para trás. Fonte absoluta da resistência, o amor nunca é fácil de achar. 

Todos juntos formam o corpo nobre e suado de poeira urbana, para além da magia que não existe no ponto zero. Dominados pelo medo, são guiados no escuro por almas pouco aparentes. Não sabem quem são eles, não sabem dar o próximo passo.

E é lá que a lei atua para o óbvio poder, que não sabemos sua forma e sim sua severa ação.

Filhos do pé descalço, ombros carregados, pau e ferro. Resistência!

Andando pela rua, assistindo as luzes irem e virem, num movimento extra-perceptivo que faz o Mundo girar. A lógica estampada para cada um, junto com a venda do ser estagnado. O correto, o estilo, o padrão estampado ainda mais em vertentes para serem absorvidas e aplicadas. É assim que nasce o sentido do que entendo por ERROR!

Atitude insólita, sem saber as dimensões. Pode nascer um corpo esticado ao chão, furado por balas do inimigo.

A aplicação da morte representada pela opressão, onde os políticos estão resguardados.

E a covardia oprime o popular, Niterói e o Mundo. Mas é na luta da esperança, continuar. Nosso corpo pesa uma tonelada.

Cicatrizes

08/05/2012

Hoje faço parte de um todo simbólico transcrito de memórias amarradas com os limbos do velho mundo onde as raízes tenderam crescer e só agora percebo toda a leveza do descobrimento porém desacreditado das coisas ruins que nos cercam onde estivermos por mais bucólico que pareço ser.

Eles não falam da natureza, não falam dos verdes horizontes. Falam das coisas reais.

Expresso do grito!

07/05/2012

Eu grito por dentro junto com vozes dissonantes nas horas do dia. Dust.

Penso mais que a sensação do acabado, posto fim numa onda de entregamento. E ponho meu corpo aberto a alma exposta, pensando no toque, assumindo a troca, gerando carinho.

Quando o expresso leva o corpo, mas deixa a alma, talvez tenha passado um ponto.

Mesmo quieto, falo mais da quebra, não é situação como fantasia em minha imaginação. Só que, falo do que?

Do grito harmonia vindo do som como matéria física que se desloca. Nesse pensar não cabe mais o remoer de não ter, aquilo que nunca chegou a ser teu. É busca do que passou no expresso desde noites passadas, seguindo seu trajeto interruptamente. Nele vem as vozes dissonantes que me tiram a paz do simples dia, fixando a imagem e o sonho, do que somente existe na minha cabeça!

É simples passagem. Não travou igualdade de sentimentos. Meu corpo dorme sem forças para olhar a janela. É nela que me vem toda a imagem circular donde piso. Nesse piso estão as situações do prazer e angústia, de conhecer a dor de um não.

a porta abriu o caminho da volta

24/10/2011

amanheceu às 11 horas da manhã, o despertador não tocou, ou tocou e não foi ouvido. ninguém mais dorme na cidade azul a não ser o pássaro do vizinho, que estranhamente não cantara até agora. 11:12 da manhã, antes de adormecer novamente, quis o café mesmo frio que se encontrava na parte externa da casa. o sol radiava forte fora da sombra, lembrando os dias de verão vividos sem compromissos e apenas se sentindo um estranho. isso foi o suficiente para não querer mais voltar ao último sonho e sim se preparar para escrever uma carta.

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quando você é estranho, apenas quer abrir a janela e esperar que a luz vá se embora, mesmo sabendo que a partir de agora nada será capaz de nos parar. sentado na cama, caderno e lápis na mão à espera da inspiração. sentado, quieto, olhando. o caderno ainda aberto. o lápis então toma sua posição e parte-se para a primeira parte da carta, três páginas de introdução, pois fazem mais de um ano que não se encontram. para ajudar na escrita, ligou-se o rádio bem alto ao som de um rock estranho que cantava ” waiting for the sun “. letras, frases, palavras se formaram na elaboração de uma carta simples, mas tentando carregar um sentimento carinhoso ao relatar os últimos meses da sua vida, relatos até mesmo pessoais, com esperança que aquilo tocasse o sentimento alheio e fizesse surgir conselhos sobre qual caminho tomar entre alguns. ponto final, envelope colado, correios como destino.

o sol ainda brilhava quente, agora fazia mais sentido o ” waiting for the sun “. o calor bateu forte na cabeça, escorria suor e certas imagens começaram a se formar. era necessário ir embora, aquilo fazia mal. 10 minutos e nada, as imagens surgiram cada vez mais complicadas, algumas pessoas caminhavam e não respondiam ao cumprimento dado. “são necessárias algumas cerejas”, virou-se e não encontrou mais o carro, acabara de ser roubado junto com uma “spanish caravan” que passara. na carteira ainda sobrara alguns trocos, sendo possível comprar algumas cerejas.

no jardim mais próximo as coisas melhoraram, na sombra, o calor foi passando, apenas sobrando a cabeça um pouco quente e alguns fios de cabelo extremamente molhados. a primeira cereja desceu muito fácil, o jardim era confortável, com uma vista ampla de uma cidade antiga, cheia de prédios antigos e bem ao fundo conseguia-se ver um lindo rio. sem falar nada, ouvindo poucas coisas, quis na verdade conversar com si próprio, num diálogo bizarro entre o mesmo pensamento, onde a pergunta era respondida pela própria pergunta. talvez o efeito da cereja alcançara o cérebro, essa era a intenção. quem queria estar ali, estava. sentado como os demais, olhando as mesmas coisas.

eram 20 horas e ainda havia luz iluminando um navio que atravessava o rio. porém aos poucos ia-se embora os últimos raios daquele dia quente e de certos significados para alguém que tinha em casa duas malas cheias e prontas para uma viagem. numa tentativa fracassada, ligou-se a câmera fotográfica, que devido a areia em seu zoom, não ligava mais, eram resquícios de uma longa jornada que vivera no grande saara. só que não podia ir embora sem um registro pessoal daquele dia de poucas horas, por isso saiu em busca de uma porta colorida que fizesse os sentidos ficarem mais aguçados a ponto de encararem o horizonte como algo próximo da visão e das mãos.

fez-se noite. alguns pássaros começaram seus cantos, uma linda melodia. na igreja ao lado o organista não quis tocar a música religiosa e não pensou duas vezes em fazer um dos mais bonitos solos ouvido. por acaso, a igreja entrou em choque, o padre numa atitude de pânico derrubou algumas velas acessas sob a toalha do altar, o que foi suficiente para se espalhar entre as outras toalhas e assim o solo do organista ganhou mais impacto, um verdadeiro “light my fire” ! mas não mais que isso. seguiu seu caminhar até um outro bairro, alto, como todos os outros, fixando cada detalhe com a ajuda da porta que se abrira diante de tantos horizontes. do céu escuro, lua e nuvens compunham o cenário de noite rara, entre escadarias e calçadas, ruas, largos, praças e jardins.

cada vez mais, portas se abriram, sendo fácil o não sentido, era estar como perdido. lembrar do passado despertou a ira do dragão, que se fez presente no exato momento do futuro que estava por vir. da última figueira vista, o pássaro de metal surgiu deixando o dragão atordoado, voltando para o passado, calmo e quieto em seu sono. e então o pássaro de metal foi muito útil e usado para a volta à terra. assim se sucedeu, no dia seguinte, como esperado “this is the end, my only friend”.

exercício

14/09/2010

Esperando Godot foi lido anos atrás. Grande referência para as idéias, uma delas surgiu no meio da aula de Planejamento. Coisa de cinco minutos estava ali, mesmo estando incoerente e novato. É um exercício, é uma tentativa.

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Heitor e Ezeu estão sentados na beira de uma estrada deserta de chão de terra, olhando de um lado a outro. O diálogo se reveza entre Heitor e Ezeu.

– Quem cria o dia de amanhã?

– Eu acho que é o Golum.

– Mas quem é o Golum?

– Golum é o responsável pela criação do dia de amanhã.

– E se Golum se esquecer da criação?

– Acho difícil, já que ele só faz isso desde antes de ontem.

– Ahhh, talvez tenha alguma coisa errada nessa história.

– Por que?

– Porque antes de ontem não teve a criação do dia de amanhã.

– Hmmm, é mesmo. Tinha me esquecido. Então Golum se esqueceu desse primeiro dia.

– É mesmo, mas amanhã ele não se esquecerá.

– Ah é? Por que?

– Porque ele sabe o que faz, seu trabalho é esse. Não vai se esquecer.

– Mas antes de ontem ele esqueceu.

– É que ele deve ter se enganado, era seu primeiro dia.

– É. Mas me diga, como era mesmo a criação do dia de amanhã antes de ontem?

– Não me lembro. Engraçado isso né, estamaos aqui sentados faz um tempinho e o dia parece nem passar.

– Claro que passa. Hoje mesmo teve a criação do dia, você não viu?

– Hmmm, não vi. Como foi?

– Foi assim, Golum veio e criou.

– Tá, mas isso a gente já disse várias vezes, eu quero saber como foi.

– Sei….mas eu também não sei como foi. Só sei que quando cheguei aqui já tinha sido criado.

– Criado o que?

– Criado o dia!!!

– Ahhh é. E amanhã, como será a criação do dia?

– Oh! Chega disso, já falei várias vezes, é Golum que cria e ele sabe como faz e não vai se esquecer.

– Tem certeza?

– Tenho sim. Eu já vi várias vezes isso acontecer.

– Mas você disse que foi desde antes de ontem que Golum começou a criar o dia de amanhã. Como pode ter visto isso várias vezes?

– É porque eu conheço Golum.

– Caramba! Você o conhece?

– É……..acho que sim.

– Ahhh, que legal. Deve ser legal conhecer tudo isso.

– Conhecer tudo isso o que?

– Puuxa….não sei. Isso que você está me falando.

– Ahhh! Vamos falar do dia de ontem?

– Melhor não, eu não lembro do dia de ontem.

– É mesmo, eu também não.

(Silêncio)

– Quer uma maçã?

– Não, obrigado. A partir de hoje só como amanhã.

– Hmmm, então tá. E ai, vamos esperar o dia melhorar ou vamos fazer o dia melhorar?

– Estou bem aqui, não quero dar nenhum passo. Vamos esperar mesmo, daqui a pouco alguém aparece e nos livra daqui.

– Poxa, será mesmo? Queria conhecer outro lugar.

– Para quê? Você não vai entender nada. É tudo confuso e as outras pessoas são….loucas!

– E a gente não é?

– Claro que não. Somos os únicos que conhecemos Golum.

– Mas eu não conheço Golum, quem o conhece é você!

– Conhecerás amanhã, pode aguardar.

(Silêncio)

Heitor e Ezeu ficam de pé e olham de um lado a outro. Ezeu come sua maçã e joga o miolo fora. Voltam a se sentar. Heitor rói as unhas e cospe ao vento. Os dois ficam quietos e sentados, esperando o dia de amanhã e a chegada de Golum.

Minha viagem a Veredas, meu sertão

07/07/2010

“Óh Veredas, meu sertão”

Dentro de mil páginas contarei a viagem de minha vida e meus sete irmãos. Será preciso entender que existirão partes desse relato em mil lugares. Um deles ficará aqui.

Meu sertãoVeredas era algo abstrato a minha pessoa. Já meus irmãos, conheciam uma espécie de bicho que era de lá. Mesmo sendo apenas isso o nosso conhecimento pelas terras Veredas, resolvemos vender nossa vaca, nosso rádio e nosso cabrito para pegar um ônibus e ir até Veredas, meu sertão.

O céu estava azul , sem nuvem alguma. Era esse dia a partida. Com malas postas, soubemos que ninguém vai a Veredas e por isso não havia nenhuma condução. A não ser, mulas! Eu e meus sete irmãos, não pensamos uma sequer vez. De mula, partimos a grande terra Veredas.

Capítulo 01 (de 03)

“O sol forte. O sol forte.”

A água foi-se rápida demais. Só sobrara a rapadura. Tínhamos andado pouco mais de sessenta quilómetros e meio, o sol era muito forte. Um de meus irmãos começou a ter imaginações demais e passou a falar de jagunços mortos naquele caminho. O único jeito de contiuarmos nossa viagem sem histórias de espíritos, foi dando-lhe um tabefe e dois pedaços de rapadura.

Foi escurecendo e o jeito foi parar à beira de um riacho. A paisagem nos fascinava muito e a noite só conseguimos falar das estrelas. Um de meus irmãos, sem ser aquele que vira espíritos a tarde, disse que estava vendo o caminho do dia seguinte pela posição das estrelas. Veredas era nosso destino. Sol posto, dia claro novamente e água abastecida nos nossos cantis. Óh Veredas, espere por nós.

Nosso caminho era maravilhoso. Natureza conversando conosco em todos os níveis. Passávamos por montanhas, pastos, rios, cachoeiras, grutas e um pôr-do-sol glorioso fechando nosso árduo dia em cima daquelas mulas.

Capítulo 02 (de 03)

“Chegava a terra Veredas. Ninguém sabia por que ia, mas sabia da romaria.”

Pelos meus irmãos, estávamos pertos e chegaríamos naquele mesmo dia. Era nesse dia que encontramos e falamos com o grande Corisco, deus e diabo na terra do sol. Foi ele que nos deu a passagem para continuarmos nosso caminho à Veredas. Era logo ali.

Eis a chegada a Veredas, meu sertão. Meus irmãos disseram que sabiam que aqui era Veredas pela posição do sol, mas eu nem percebi nada. Depois de passar um pequeno riacho, senti uma coisa estranha. Meus olhos saltaram para fora do meu corpo e o brilho da minha alma aguçado. Estava em Veredas, meu sertão.

Capítulo 03 (de 03)

“O chão rachado de cor e alma. O sol, o sol. Terra e terra.”

Descemos das mulas e pegamos nossas bolsas. As mulas praticamente caíram ao chão pelo excessivo esforço da paisagem árida e montanhosa. Não havia nada, a não ser o sertão.

Isso era apenas o que estava ali, o que sentíamos era algo muito maior e de outra dimensão. Andamos a diante, só que agora, a pé. O sol ainda era muito forte, nenhuma árvore para sombrear.

“Nessas terras viveram poucas pessoas. Eram pessoas simples, mas muito místicas e apenas por dialogar com o sol e a terra”, um de meus irmãos disse. Ninguém comentou nada. Aos poucos nos distanciamos, mas sem perdermos de vista. Andávamos e andávamos na mesma paisagem. Estávamos hipnotizados, certamente.

“Óh Veredas, meu sertão. Por aqui passeiam espécies que lá nem gorjeiam. Terra de amargo suor, que depositou a sabedoria do sertão. Povos que se foram e voltaram. Nada dá, nem sobrevive. Óh Veredas, meu sertão, como seria bom se fosse nosso Mundão.”

Chegava a noite, amanhecia novamente, só andávamos na mesma paisagem e na mesma direção. Por aqui ficamos, fazendo parte dela mesma, Veredas meu sertão.

Apêndice:

A partir desse relato, deixarei outras partes dessa viagem em mil lugares. Veredas é a terra onde ninguém sai e poucos entram. Jogo minhas folhas ao vento, que em Veredas sopra por todo momento.

Valsas

14/06/2010

Zezinho tinha uma sanfona. Tocava lindas melodias sobre o azul do céu.

Altamiro tinha um clarinete. Tocava lindos choros sobre o verde do campo.

Tião tinha uma viola. Tocava lindas modas sobre a presença de Deus.

Um dia eles se encontraram e tocaram lindas músicas sobre seus sonhos.

Elas foram chamadas de as três Valsas.

Valsa do Minuto, Valsa do Tempo e Valsa da Vida.

Desde então, suas vidas não foram mais as mesmas.

Assim que acordavam, pensavam sobre as músicas.

O sentimento era de amor e dúvida. Os sonhos viraram músicas.

Mas músicas não podiam ser sonhos.

Zezinho quase sem conseguir dormir, foi atrás de Tião. Que tinha ido atrás de Altamiro.

Conseguindo se encontrar, os três se puseram a falar.

Depois de muita conversa, chegaram à conclusão que seus sonhos eram músicas.

Tudo foi transformado em vida, tempo e minuto. E a cada sonho, novas músicas.

O azul do céu, o verde do campo e a presença de Deus faziam parte das três valsas.

As valsas da alma.

Treze dias em Istambul

12/06/2010

Exercício realizado na Oficina de Narrativas, disciplina de Estudos de Mídia, da UFF.

A primeira parte do texto é de autoria minha, Leonardo. A segunda, é de Viviane Roux.

“Já faz treze dias que estou em Istambul. Era noite quando me trouxeram do aeroporto, sem dizer para onde estávamos indo. A partir do momento em que saí do aeroporto, percebi que estava onde queria. As luzes, as ruas, as pessoas, tudo me veio à cabeça como aquele ano. Mas desta vez eu sabia que seria diferente, por mais que não soubesse onde estávamos indo, sabia que estava onde queria.

Esses dias que se passaram foram um tanto doloridos. A busca não tinha resultado em nada e o máximo que consegui foi ir até o bar de Islail, para lá tomar carbel e deitar-me olhando para o céu.

Hadija me deixara inquieto desde aquele ano; sua cítara estava dentro de mim e sua sonoridade era minha música desde então. Pedia aos taxistas para me levar a qualquer lugar. Pelo caminho, olhava atentamente cada ponto dessa cidade anormal em busca do prazer que tinha tomado minha consciência.

Era noite quando decidi sair a pé pelas vielas do chamado centro comercial. Já não agüentava mais cheirar ácido da minha roupa que não trocava há dias. Sentia que aquele lugar me levaria a Hadija e sua cítara. Entrei em um bar que era como um cabaré de lindas mulheres turcas e ali sentei para beber novamente carbel. Ao meu lado, um marroquino me ofereceu haxixe em troca de pouco dinheiro. Animei-me com a idéia e fomos para fora do bar pegar a mercadoria. Entramos no seu carro e rodamos quase toda a cidade para pegar este verme que me levaria até o céu. Por ironia do destino, fumamos dentro do carro e o que aconteceu foi um total abandono daquele homem, me deixando num canto da cidade desconhecido por mim. Agora era eu e minha cabeça. Que mal conseguia organizar as idéias, porém o corpo ainda clamava por mais. Era esse mais apertado na garganta de qualquer um que estava ali numa praça. Lembrei-me da noite de 2007, quando conheci aquela mulher e sua sonoridade. A mesma desordem mental me ocorria, misturada com o desejo de ir adiante, buscar minha cólera por tê-la deixado. Agora exatamente, sei o que falar sobre meu ser. Impaciente, possuído, apenas habilitado a pensar. O que soa estranho é esse eu que fala, mas o eu que escreve, ou melhor, o eu da noite. O momento. Ali fiquei por horas.

Quando amanheceu, percebi que estava sem dinheiro algum, contudo me encontrava em um lindo vale montanhoso, na beira de um riacho. O lugar me trouxe uma sensação incrível, era como se a melodia da cítara estivesse a poucos metros.

As cores daquele lugar eram incríveis. Se Monet o tivesse visto, teria deixado a França. Fui até o riacho e com a mão em concha busquei um pouco de água. O líquido gelado chegou ao meu estômago e vomitei. Uma gosma clara com cheiro de carbel. Fui tomado por uma sensação incrível, convencido de que eu só poderia estar aqui, mesmo sozinho, mesmo sem dinheiro.

Num impulso, me joguei no riacho e, depois do choque do meu corpo quente com a água fria, vomitei de novo. Vomitei o haxixe, o avião, o taxista, Hadija e sua cítara, meus enganos, as mentiras e toda aquela saudade. Sentei tremendo de frio até o vento me secar.

Que direção tomar quando não se tem direção? Direita ou esquerda não importa, ninguém me espera, ninguém sabe. Somos eu e minha procura. Segui o curso daquelas águas transformadoras e me deparei com um velho sentado. Maltrapilho e de barba cinza, parecia que estava ali há anos. Perguntou-me com sua voz fraca:

– Aonde vai, forasteiro?

– Não sei, embora sinta que falta pouco para chegar.

Quando estava me virando, o velho atirou umas folhas que estavam em suas mãos na água e disse:

– Como você, as folhas não sabem para onde vão, mas continuam a seguir seus destinos e eu lhe mostro onde é – apontou para o horizonte.

Intuí que ali o riacho devera desembocar em um grande lago ou talvez no mar – embora o riacho faça curvas, caia em cachoeira ou se abra em afluentes. No final de tudo, é para lá que elas devem ir.

Permaneci um tempo pensando no que o velho dissera enquanto tomava uma difícil decisão: ou continuava ali, afastado da cidade, mas perto da paz espiritual que o ambiente proporcionava, ou voltava para a cidade aonde a possibilidade de encontrar Hadija era maior.

Um pássaro amarelo-claro e seu canto me lembravam a cítara. Segui com os olhos e fui andando atrás dele. Às vezes o perdia de vista. Aos poucos, umas casas iam surgindo. Voltei para o calor de Istambul. O canto do pássaro foi se tornando imperceptível, misturado aos sons da cidade. De repente, o perco de vista. Olho para todos os lados até que ouço um som familiar. Corro, corro demais, corro. Primeiro, vai as mãos, acariciando as cordas. Depois, o cabelo escuro e, por último, os olhos marejados. Um sorriso de saudade, mas ficamos onde estávamos, precisaríamos esperar um pouco mais. Hadija precisava acabar uma música.”