a porta abriu o caminho da volta

amanheceu às 11 horas da manhã, o despertador não tocou, ou tocou e não foi ouvido. ninguém mais dorme na cidade azul a não ser o pássaro do vizinho, que estranhamente não cantara até agora. 11:12 da manhã, antes de adormecer novamente, quis o café mesmo frio que se encontrava na parte externa da casa. o sol radiava forte fora da sombra, lembrando os dias de verão vividos sem compromissos e apenas se sentindo um estranho. isso foi o suficiente para não querer mais voltar ao último sonho e sim se preparar para escrever uma carta.

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quando você é estranho, apenas quer abrir a janela e esperar que a luz vá se embora, mesmo sabendo que a partir de agora nada será capaz de nos parar. sentado na cama, caderno e lápis na mão à espera da inspiração. sentado, quieto, olhando. o caderno ainda aberto. o lápis então toma sua posição e parte-se para a primeira parte da carta, três páginas de introdução, pois fazem mais de um ano que não se encontram. para ajudar na escrita, ligou-se o rádio bem alto ao som de um rock estranho que cantava ” waiting for the sun “. letras, frases, palavras se formaram na elaboração de uma carta simples, mas tentando carregar um sentimento carinhoso ao relatar os últimos meses da sua vida, relatos até mesmo pessoais, com esperança que aquilo tocasse o sentimento alheio e fizesse surgir conselhos sobre qual caminho tomar entre alguns. ponto final, envelope colado, correios como destino.

o sol ainda brilhava quente, agora fazia mais sentido o ” waiting for the sun “. o calor bateu forte na cabeça, escorria suor e certas imagens começaram a se formar. era necessário ir embora, aquilo fazia mal. 10 minutos e nada, as imagens surgiram cada vez mais complicadas, algumas pessoas caminhavam e não respondiam ao cumprimento dado. “são necessárias algumas cerejas”, virou-se e não encontrou mais o carro, acabara de ser roubado junto com uma “spanish caravan” que passara. na carteira ainda sobrara alguns trocos, sendo possível comprar algumas cerejas.

no jardim mais próximo as coisas melhoraram, na sombra, o calor foi passando, apenas sobrando a cabeça um pouco quente e alguns fios de cabelo extremamente molhados. a primeira cereja desceu muito fácil, o jardim era confortável, com uma vista ampla de uma cidade antiga, cheia de prédios antigos e bem ao fundo conseguia-se ver um lindo rio. sem falar nada, ouvindo poucas coisas, quis na verdade conversar com si próprio, num diálogo bizarro entre o mesmo pensamento, onde a pergunta era respondida pela própria pergunta. talvez o efeito da cereja alcançara o cérebro, essa era a intenção. quem queria estar ali, estava. sentado como os demais, olhando as mesmas coisas.

eram 20 horas e ainda havia luz iluminando um navio que atravessava o rio. porém aos poucos ia-se embora os últimos raios daquele dia quente e de certos significados para alguém que tinha em casa duas malas cheias e prontas para uma viagem. numa tentativa fracassada, ligou-se a câmera fotográfica, que devido a areia em seu zoom, não ligava mais, eram resquícios de uma longa jornada que vivera no grande saara. só que não podia ir embora sem um registro pessoal daquele dia de poucas horas, por isso saiu em busca de uma porta colorida que fizesse os sentidos ficarem mais aguçados a ponto de encararem o horizonte como algo próximo da visão e das mãos.

fez-se noite. alguns pássaros começaram seus cantos, uma linda melodia. na igreja ao lado o organista não quis tocar a música religiosa e não pensou duas vezes em fazer um dos mais bonitos solos ouvido. por acaso, a igreja entrou em choque, o padre numa atitude de pânico derrubou algumas velas acessas sob a toalha do altar, o que foi suficiente para se espalhar entre as outras toalhas e assim o solo do organista ganhou mais impacto, um verdadeiro “light my fire” ! mas não mais que isso. seguiu seu caminhar até um outro bairro, alto, como todos os outros, fixando cada detalhe com a ajuda da porta que se abrira diante de tantos horizontes. do céu escuro, lua e nuvens compunham o cenário de noite rara, entre escadarias e calçadas, ruas, largos, praças e jardins.

cada vez mais, portas se abriram, sendo fácil o não sentido, era estar como perdido. lembrar do passado despertou a ira do dragão, que se fez presente no exato momento do futuro que estava por vir. da última figueira vista, o pássaro de metal surgiu deixando o dragão atordoado, voltando para o passado, calmo e quieto em seu sono. e então o pássaro de metal foi muito útil e usado para a volta à terra. assim se sucedeu, no dia seguinte, como esperado “this is the end, my only friend”.

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