6 anos atrás, fazíamos um filme

Depois de anos sem acessar e publicar nesse blog, recebo um grande presente que tem tudo a ver com o nascimento desse espaço para ideais. E por isso retomo o dito qual à vida, se juntando aos registros passados de um tempo muito especial e marcante.

A querida Dora Maria me mandou um texto-crítica sobre o filme Não Existem Profetas (2010), minha primeira experiência na realização cinematográfica. O filme é uma ficção média-metragem produzida e filmada em 2009 como livre-iniciativa dentro da escola de cinema da UFF-RJ. Filme mega colaborativo, colocou em prática parte dos estudos e discussões sobre o cinema e o modo de fazer cinema. O resultado pode ser visualizado aqui: https://vimeo.com/95339707

O filme chegou a participar de alguns festivais, entre eles o “Mostra do Filme Livre”, “Festival Brasileiro de Cinema Universitário” e ganhou o prêmio de melhor filme da “Mostra Cine Trabalho” em 2011. Caio Miranda Makakai (diretor de fotografia) também escreveu algumas considerações sobre o filme: http://cogucameras.blogspot.com.br/2014/05/nao-existem-profetas-media-metragem.html

Leia abaixo a crítica de Dora Maria:

O PROFETA FILME DE CINEMA.

A história: um rei que numa determinada conjuntura exerce um poder material, psicológico e ideológico sobre seus servos, o mesmo pratica atos autoritários. No fim do roteiro um visionário revolucionário elabora um “motim” e mata a majestade pela liberdade do povo.

Não se trata de uma história original por abordar temas como a desigualdade humana no campo econômico, político, ideológico e existencial. Ela utiliza se de alegorias que se encontram no imaginário da sociedade sobre o contexto da era medieval. E que até hoje reside no inconsciente coletivo através das histórias de contos de fadas, adaptadas aos moldes contemporâneos ou não.

Porém tudo é forma. E o que deixa o filme com o tom de originalidade são os elementos da linguagem cinematográfica utilizados. O filme tem um tom de que não se sabe até que ponto a (falta de) estrutura da produção conduziu a escolha estética ou ao contrário, a lembrar de que se trata de uma produção estudantil e se entende que o espaço de experimentação da linguagem dos autores é maior.

Sem ignorar as questões que envolvem o cenário de produção cultural nacional, como suas dificuldades e conquistas diante de políticas públicas cinematográficas versus produções independentes. Resultados ainda assim de uma inexpressiva ação em certos pontos de produções isoladas, se não margeadas no âmbito do que se refere as produções que ditam o público das salas de cinema. Neste momento ao falar do filme tema, o assunto torna se secundário. Pois o nível de maturidade e certa seriedade “sarrista” de produção chamam mais a atenção.

O nostálgico primeiro plano que remete à ouvinte esperançosa multidão que segue o profeta proferindo “E o sertão vai virar mar, e o mar vai virar sertão”, nos abre um leque de grandes e importantes referências cinematográficas nacionais. Entretanto, é essencial afirmar que a leitura dessas referências podem apenas existir das subjetividades de quem o assiste e pensa sobre a obra discutida. Assim como essas mesmas existem em decorrência das vivências do público e seus signos individuais. Que implica a democracia ser uma das características das intervenções artísticas.

Da impressão de uma legião de fiéis andarilhos, descobre-se que os personagens são servos de um rei ditador. Eles são obrigados a trabalhar na reconstrução material de um reino. E este cenário se concentra na estrutura da construção de um prédio, que a princípio visualmente nos remete a um histórico de especulação imobiliária de um espaço ambiental. O resultado disto é uma arquitetura de mau gosto estético e ideológico: andares de cimento cinza, que na fotografia muitas vezes essa cor expressa um duro e frio exagero de sentimento perdido compartilhados pelos personagens: submissão, liberdade, amor, deleite e o próprio sentido.

Mas ao adentrar no contexto real de produção e direção do filme, algumas perguntas sobre certas escolhas começam a serem respondidas. O cenário, cuja escolha torna a obra na sua totalidade, exerce um papel além de seu aspecto funcional – como todo estudante ou realizador de cinema descreveria o olhar para com os espaços que os ocupam, cada canto da cidade adquire a poética e se torna uma escolha de enquadramento para uma cena. Considerando esta questão e caminhando para além da decupagem, este espaço registrado em construção se assume posteriormente como Museu Petrobrás de Cinema, de autoria do arquiteto Oscar Niemeyer.

Portanto, a obra se aporta dentro do cenário cinematográfico nacional, com todas as suas importâncias formalistas, como um registro histórico de um espaço sifinificativo para o cinema autoral nacional e estrangeiro.

Sendo assim podemos listar alguns filmes na história do cinema mundial que fazem alusão a própria linguagem. Entre eles “O Acossado” de Jean-Luc Godard ao questionar a forma vigente de se pensar cinema, ele utilizou o recurso do corte seco, que resultou entre tantas questões algumas mudanças da relação entre a obra e o espectador.

Cantando na Chuva” de Betty Comden e Adolph Green que conta a trajetória da inserção do Som Direto nas produções cinematográficas, dentre as novas possibilidades narrativas e conceituais que o som poderia proporcionar no final de década de vinte.

Um outro exemplo seria o filme “Lisbon Story” do Wim Wenders. Que conta a história de um alemão que viaja até Lisboa para trabalhar no som de um filme, porém durante a história o técnico de som não encontra o diretor do projeto. A partir desta circunstância ele começa a viver uma solitária descoberta sonora nesta cidade portuguesa. Independente da linguagem estabelecida, esse estado de espírito do processo criativo é bem exposto, portanto além da discussão da própria linguagem vigente, existe a reverência do próprio ato como necessidade da expressão do artista. Registros que estiveram além do cinema, como na pintura, nos romances e com grande expressão na poesia.

Mesmo considerando esses tópicos formalistas e filosóficos em relação a criação da obra, o que faz o Não Existem Profetas se tornar um filme metalinguístico não é a escolha estética ou narrativa, mas sim histórica e que em específicos momentos poderá se tornar militante.

O que reforça esse debate é a presença do ator, cineasta, professor, dentre tantas atividades: militante da causa do cinema nacional independente, Sérgio Santeiro encenando o rei ditador.

Considerando essas questões discutidas de maneira expressiva no processo de leitura crítica do filme, a obra cria um certo volume que nos sensibiliza ao ponto de pensarmos nela pós exibição. De adentrarmos em busca de detalhes e insinuações da mensagem do filme.

Mas tudo isso é resposta de um fator importante do universo do filme: O absurdo. Essa característica se enquadra em todos os fatores da obra. Do ritmo da montagem a ação dos personagens. Os servos trabalham neste cenário urbano tão familiar em nosso cotidiano real, mas que no filme este espaço ganha o tom apocalíptico. O trabalho com as precárias enxadas que tentam tirar paraísos do duro cimento, expressam um exercício árduo e simbólico da imposição do rei.

O absurdo se revela nas aparições dos questionamentos dos personagens. Soa uma contradição da posição pela busca de mudança revolucionária daquela condição com diálogos niilistas. O apocalipse se demonstra de forma externa e interna. Neste primeiro pelo questionamento da relação de poder entre o rei e os servos, no segundo através da crise interna de fé no mundo e nos homens.

Como dito, é claro alguns elementos narrativos de contextos históricos que manifestam temas como poderes ditatoriais, e como resposta há uma sequência de intervenção artística de dois servos. Previamente o rei avisa do alto do estacionamento, sem antes da proclamação de sua vinda discusada pelo capacho e fiel servo, seu braço direito. Que anuncia de forma grotesca e irônica o discurso do rei. Suas vestimentas ridículas e gesticulações expressivas de uma classe média que projeta em seus atos submissos à ascensão de suas funções. Ele clama e o rei se aproxima anunciando uma peça de teatro de fantoches a ser realizada por dois servos, que no futuro próximo são reprimidos, acusados de subversivos.

A sequência do prólogo do espetáculo de fantoches é caracterizada por um ritual de vestígios espirituais. Uma transcendência xamânica com performances dramáticas da embriaguez dionisíaca, típica do teatro grego. O transe é induzido através da inserção de uma bebida preparada com ervas. Assim, o espetáculo começa.

A pouca plateia assiste de maneira abatida. Sentado atrás, o rei. Os fantoches se erguem: um diálogo entre uma flor e um pássaro profeta. O filme que já evidenciava tendências surrealistas e lisérgicas, se assume como tal.

Os planos que se resumiam em campo e contra campo, registrando a reação da plateia e o palco com os bonecos, se materializam em um outro ambiente. Agora há atores caracterizados de pássaro e flor. A decupagem oscila entre os planos dos fantoches e os atores encenando o mesmo diálogo, de maneira linear. A montagem imerge de maneira kafkiana à sensação de adentrar as camadas mais profundas da imaginação. A materialização dos fantoches para a encenação dos atores, coexistindo em outro ambiente e de diferentes composições, provoca a sensação de projeção da construção imagética da fantasia da história. O sentimento não é diferente de um sonho.

No final da peça os atores são acusados de subversão pelo rei. Mas a ideia de que se fica, é que o filme se auto declara, subversivo inato. E a plateia aplaude.

Alguns artistas e pensadores que se debruçaram a pensar e escrever sobre manifestações ou iluminações profanas, defendem a ideia de levar a embriaguez espiritual para a revolução libertária transcendendo o estado prosaico da realidade empírica (Richard Wolin). Principal busca e repulsa dos servos nesta história.

No fim da obra, a morte aparece como caminho certo da questão, e na leveza densa da existência a criação se completa e mostra a sua face mais pura. O filme fecha com o plano dos simples corpos – nus dessas pessoas sobre um plano terrestre.

Dora Maria. 18/08/2015

frame do filme (2010)

Frame do filme Não existem profetas(2010)

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