Um Som Sensível

Bitches Brew – um som sensível

Bitches Brew de Miles Davis, foi gravado nos dias 19, 20 e 21 de agosto de 1969 no estúdio da Columbia e lançado em 1970. O disco é um marco da música moderna, revolucionário e altamente conceitual. Rejeitou os ritmos do jazz tradicional em favor de um estilo de improvisação mais solto, de maior liberdade muito parecido com o rock.

Bitches Brew é uma obra intensa, criativa e densa. É um marco para a música e para a quebra dos conceitos tradicionais. Eu como músico posso afirmar que esse disco é uma aula de composição – improvisação, de sentimento pela música que está sendo executada, entendendo ela como um ser que caminha, sabendo os caminhos que irão ser percorridos, mas também sabendo que cada um irá percorrer da sua maneira.

Nos anos de 1967, 1968, Miles Davis escutava a influência do Rock. Em 1968 ele ouvia James Brown e Jimi Hendrix, e um sucesso recém saído, Sly and the Family Stone (algo mais funky – rock).

Ele prestava muita atenção em Hendrix, com seus ritmos na guitarra. Além de Hendrix, Keith Jarrett e Jack DeJohnette faziam sua cabeça dentro de outro grupo – cruzamento de jazz e rock.

(Vídeo de partes de Bitches Brew)

Hendrix entrou em contato com Miles para saber seu modo de criar e tocar. Hendrix era grande admirador de John Coltrane (saxofonista parceiro de Miles Davis), seu jeito de tocar com todas aquelas camadas de som, tocando sua guitarra de um modo semelhante. Isso já é uma premissa do trabalho em Bitches Brew, pois o uso de inúmeras camadas de som também ocorreu nesse disco.

Hendrix duplicava os sons da guitarra nas gravações e isso fascinava Miles. Sly e Hendrix eram grandes músicos chamados por Miles de “naturais”, tocavam de ouvido.

“Portanto era assim minha cabeça no que se referia à música. Primeiro, eu tinha de estar a vontade com o que ia tocar. Depois, tinha de encontrar os músicos certos.” (Miles Davis, Quincy Troupe – Miles Davis, A Autobriografia, Ed. Campus, página 257)

Miles foi mudando aos poucos em 1968, quando tinha um grupo de músicos que estava se desmanchando para cada um seguir suas carreiras. Essa mudança propiciou a Miles chamar outros músicos novos que estavam mais ligados ao que ele pensava da música. Primeiramente chamou Dave Holland (baixista), “Meu interesse era encontrar um baixista eletrônico, pelo som que isso acrescentava ao conjunto.” Começou a usar nessa época os músicos Chick Corea e Joe Zawinul no piano, colocando três pianistas nos trabalhos, Herbie Hancock, Chick e Joe. Em algumas gravações desse mesmo ano (1968) usou dois baixistas, Ron Carter e Dave Holland e começou a usar Jack DeJohnette na bateria no lugar de Tony Williams, (esses nomes são importantes, pois é aqui que começa a formação dos músicos para o disco Bitches Brew.)

Os pianistas começaram a usar o piano elétrico Fender Rhodes, alguns não gostando dessa imposição de Miles. Mas depois de um tempo gostaram da idéia. “Eu sou maluco pelo modo como Gil Evans divide sua música em vozes, e queria conseguir esse som Gil Evans no conjunto. Para isso precisava de um instrumento como o sintetizador, que faz todos aqueles sons de instrumentos diferentes.”

A idéia era conseguir uma harmonia por cima com o sintetizador, que fazia todo o conjunto ter um som mais volumoso. Com essas idéias, os críticos “atacaram” Miles dizendo que ele só queria passar para a fase eletrônica. Mas segundo ele, o piano não dava a mesma resposta que o piano elétrico (sintetizador), assim como o baixo acústico não respondia seu desejo de sonoridade. Esses eram os sons que Miles queria escutar nessa época, “Os músicos tem de tocar os instrumentos que melhor refletem a época em que estamos, usar a tecnologia que nos dá o que queremos ouvir.”

Em 1969, Miles tinha um novo grupo, Chick Corea, Jack DeJohnette, Dave Holland, Joe Zawinul, além dele próprio e Wayne Shorter. Acrescentou ainda um jovem inglês guitarrista, John McLaughlin. Com esses grandes músicos gravaram In a Silent Way, disco anterior ao Bitches Brew, onde Miles caminha para um som mais rítmico, blues – funk. Esse disco é citado e importante, pois é o grande “abre-portas” para a gravação do Bitches Brew. É nesse disco que Miles experimenta um novo jeito de lidar no estúdio, jogando fora as folhas dos acordes, os músicos tem de se virar, tocando além do que está ali e acima do que pensam que podem.

Bitches Brew

Voltando da excursão de In a Silent Way, o grupo entra em estúdio de novo para gravar o disco Bitches Brew. Álbum que dividiu a crítica musical, os mais conservadores achavam que esse trabalho era um “suicídio artístico”. A maioria dos críticos ainda remetia Miles ao jazz clássico, mas o que ele fazia nesse momento era uma grande fusão na cabeça de todos, juntando elementos do jazz, rock e funk.

1969 foi o ano que o rock e o funk venderam muito, Woodstock foi um marco. A indústria do disco estava louca para vender discos para toda essa gente, a maioria jovens e brancos, como dizia Miles, e queria saber como fazer. O jazz parecia entrar em declínio, tanto nas vendas de discos como em apresentações ao vivo. Miles sente que suas apresentações nas boates de jazz americanas não tinham mais casa cheia e isso dizia alguma coisa a ele.

Miles entra em desavença com o presidente da Columbia, Clives Davis, pelo motivo de Miles não alcançar o público jovem diante daquele estouro do Rock, além de uma briga financeira entre os dois, pois Miles tirava adiantamentos quando quisesse e Clives Davis menosprezava seu trabalho dizendo que Miles não vendia tanto para continuar tendo esse privilégio.

Esse era o clima entre a Columbia e Miles antes dele entrar em estúdio para gravar Bitches Brew. Miles afirma que não estava preparado para virar recordação da Columbia como um “clássico de jazz”, ele tinha visto o caminho do futuro com sua música, não pensava nas vendas da Columbia, nem nos “compradores de discos brancos”, era algo pessoal, o que ele realmente queria com sua música. “Eu queria mudar de curso, tinha de mudar de curso, para seguir em frente e gostar do que tocava”.

Em agosto de 1969 Miles e seu grupo entram em estúdio. Eram eles Miles Davis – trompet / Don Alias – Percussion, Conga, Drums / Khalil Balakrishna – Sitar / Harvey Brooks – Bass, Electric bass / Ron Carter – Bass / Billy Cobham – Drums, Triangle / Chick Corea – Electric piano / Jack DeJohnette – Drums / Steve Grossman – Soprano saxophone / Herbie Hancock – Electric piano / Dave Holland – Bass, Electric bass / Bennie Maupin – Bass clarinet / John McLaughlin – Guitar / Airto Moreira – Berimbau, Cuíca, Percussion / Bihari Sharma – Tabla, Tamboura / Wayne Shorter – Soprano saxophone / Juma Santos (Jim Riley) – Conga, Shaker / Lenny White – Drums / Larry Young – Organ, Celeste, Electric piano / Joe Zawinul – Electric piano.

Miles chamou os músicos em prazo curto. Algumas músicas foram ensaiadas antes das sessões de gravação, mas em muitas outras os músicos tinham pouca ou nenhuma idéia do que iriam gravar. Miles dava poucas instruções, marcava um tempo, mostrava um acorde ou sugestão de melodia. Em momentos de silêncio, a voz de Miles é audível dando instruções aos músicos, estalando os dedos ou dizendo “Keep it Right”.

Miles vinha experimentando escrever poucos acordes e mudanças simples para três pianos. “Escrevia coisas simples, como um acorde de batida e uma linha de baixo, e descobri que quanto mais os tocava, mais diferentes ficavam. Eu escrevia um acorde, uma pausa, talvez outro acorde, e descobria que, quanto mais tocava, mais ficava diferente.”

Para Miles, era importante ter mais de um baterista e um baixista, já que sua idéia era que um baixo e uma bateria produzissem uma base sólida, enquanto os demais bateristas e baixistas dessem uma nova cara, buscando outros ritmos e texturas.

A partir disso veio o pensamento em algo maior, um esqueleto de uma peça. Miles escrevia um acorde na primeira batida, saltava duas e na quarta batida colocava a tônica (grau da escala musical que tem a sensação de repouso). Isso trazia uma liberdade fazendo os músicos pensarem o que quisessem, sempre levando a criação de um acorde. “Podia pôr três acordes no primeiro compasso. Seja como for, disse aos músicos que podiam fazer o que quisessem, tocar qualquer coisa que ouvissem, mas que eu queria que isso, o que fizessem, fosse um acorde. Então saberiam o que podiam fazer, e foi o que fizeram. Tocavam a partir desse acorde, e o fizeram soar como se fosse muita coisa.”

A gravação começou cedo no estúdio da Columbia, seguindo em três dias. Teo Macero, que estava produzindo o disco, foi avisado por Miles para que não interrompesse a gravação e deixasse as fitas correrem gravando tudo que tocavam.

A primeira sessão teve alguns problemas. Miles começou a bater boca com Teo, exigindo, por alguma razão, que o produtor demitisse a secretária com quem trabalhava. Irritado com as exigências de Miles, Teo o expulsou não apenas do estúdio, mas do prédio da gravadora, mandando que levasse também os músicos.

Revoltado, Miles saiu, voltou, entrou na sala de controle do estúdio e disse ao microfone: “Teo me mandou embora e disse para levar os músicos comigo. Vamos embora”. Porém os músicos ficaram, sem entender nada, até que, minutos depois, o próprio Miles retornou, ordenou que ligassem os gravadores e começaram a gravar.

No primeiro dia, os músicos dentro do estúdio eram Wayne Shorter, Chick Corea, Dave Holland, Jack DeJohnette, Jumma Santos e Don Alias, além de Miles. Juntos gravaram “Sanctuary”. Logo depois, o grupo recebeu Bernie Maupin, Joe Zawinul, John McLaughlin, Harvey Brooks e Lenny White e gravaram “Bitches Brew”.

No segundo dia de gravação o grupo foi acrescido de Larry Young e gravaram “Spanish Key” e “Miles Runs the Voodoo Down” – essa, sem Joe Zawinul. No terceiro e derradeiro dia foram registradas “John McLaughlin” e “Pharaoh’s Dance”, composição de Zawinul. Das seis canções originais do disco, apenas essa e “Sanctuary” (de Wayne Shorter) não eram de Miles Davis.

Miles conta que dirigia como um regente assim que começaram a tocar. Ele anotava alguma música para alguém ou mandava que tocasse coisas diferentes do que ouvia, e assim a música crescia e se formava. Os músicos se encontravam todos atentos para as diferentes possibilidades que surgiam na música. Miles afirma que essa gravação foi um desenvolvimento do processo criativo, sendo uma composição ao vivo. E a idéia seguia, quando a música atingira certo ponto, Miles pedia para certo músico entrar e tocar alguma coisa. Em certos momentos, em vez de deixar simplesmente a fita correr, Miles mandava Teo voltar para que eles pudessem ouvir o que tinham feito. E então se queria mais alguma coisa num determinado ponto, simplesmente introduzia o músico e fazia. Todos os músicos saíam excitados e empolgados a cada dia de gravação, revelando ter sido um processo muito bom e interessante para todos.

Isso nos remete a uma vertente rítmica no mínimo invulgar pelos tantos músicos que chamara. Na primeira música do disco, “Pharaoh´s Dance”, é nítido perceber uma bateria fazendo uma melodia no lado esquerdo e outra bateria fazendo outra melodia no lado direito, as duas no mesmo ritmo, mas usando figuras diferentes.

Miles e o produtor Teo Macero selecionaram trechos musicais em várias partes das improvisações gravadas e editaram, juntando-as em uma peça musical única que só existe na versão dos discos. Bitches Brew fez uso de efeitos pioneiros eletrônicos como multi-tracking, tape loops entre outras técnicas de edição e mixagem.

As contribuições de Teo Macero geraram polêmicas, mas foram sem dúvida importantes e talvez de valor inestimável.

Bitches Brew também foi pioneiro no uso do estúdio como um instrumento musical, com pilhas de edições e efeitos de estúdio que eram partes integrantes da música. Miles e seu produtor utilizaram o estúdio de gravação para novas formas radicais, especialmente na faixa de abertura Pharaoh´s Dance e na faixa – título Bitches Brew. Havia muitos efeitos especiais, como tape loop, atraso de fita, reverbe, efeitos de eco. Através da edição da fita intensiva, Teo inventou novas estruturas musicais que foram posteriormente imitados pelo grupo em concertos ao vivo. Teo fez da edição uma forma de arranjo e composição. Pharoh´s Dance contém 19 edições, sua famosa abertura inicial é inteiramente construída no estúdio, com loops de repetição de algumas seções. Mais tarde, na faixa há micro-edições: por exemplo, um fragmento de um segundo que aparece pela primeira vez em 8:39 é repetido cinco vezes em 8:54 – 8:59.  A faixa-título, Bitches Brew, contém 15 edições, mais uma vez com vários laços de fita, neste caso, cinco segundos em 3:01, 3:07 e 3:12. Portanto, Bitches Brew não só se tornou um clássico controverso de inovação musical, mas também ficou conhecido por seu uso pioneiro da tecnologia de estúdio.

O disco original trazia as seguintes faixas:

Lado 1

1. “Pharaoh’s Dance” (Joe Zawinul) – 20:06

Lado 2

1. “Bitches Brew” – 27:00

Lado 3

1. “Spanish Key” – 17:34

2. “John McLaughlin” – 4:26

Lado 4

1. “Miles Runs the Voodoo Down” – 14:04

2. “Sanctuary” (Wayne Shorter) – 11:01

O que fizemos em Bitches Brew nem se poderia anotar para uma orquestra tocar. Foi por isso que não escrevi tudo, não porque não soubesse o que queria; eu sabia que o que eu queria resultaria de um processo, e não de uma coisa pré-arranjada. Essa sessão foi de improvisação, e é isso que torna o jazz tão fabuloso. Cada mudança de clima muda toda atitude da gente em relação a uma coisa, e assim o músico toca diferente, especialmente quando não tem tudo pronto a sua frente.” (Miles Davis, Quincy Troupe – Miles Davis, A Autobriografia, Ed. Campus, página 262-263)

O disco vendeu mais depressa que qualquer outro disco que Miles já fizera e mais exemplares do que qualquer outro disco de jazz da história.

Bitches Brew é uma mescla sonora de diferentes possibilidades de escuta e entendimento, sobressaindo o imaginário de qualquer ambiente musical. Apesar da imensa intensidade das músicas, Bitches Brew é um disco sensível, que necessita um pensamento livre e aberto para todas as sensações que irão ser transmitidas.

Para ouvir: DOWNLOAD do disco

Bibliografia:

Miles Davis, Quincy Troupe – Miles Davis, A Autobiografia, Ed. Campus

Michel Chion – Músicas, media e tecnologias

http://www.beatrix.pro.br/mofo/bitchesbrew.htm

http://www.odebate.com.br/index.php?option=com_content&task=view&id=11842&Itemid=142

http://www.allmusic.com

http://www.audiomedia.com/archive/features/uk-0599/uk-0599-brew/uk-0599-brew.htm

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2 Respostas to “Um Som Sensível”

  1. Caio Says:

    ae Leozito, mandando muito nos downloads e textos!!! li o texto o Miles todo, esse disco é muito doido, lembro que sempre parava por ele na adolescência quando fuçava na coleção do meu tio… foi uma das primeiras coisas de jazz que achei muito loucas e gostei, mesmo sem entender muito o que tava rolando… algumas faixas entravam num ouvido e saíam no outro, era muito novo na epoca e tem tempo que não escuto… mas me lembro que duas faixas se tornaram staples pra mim, Pharao’s Dance e Bitches Brew… é louco porque eu to botando um ponto de vista de adolescente que escutou Miles e foi um assunto que vc tocou, dele não chegar aos ouvidos dos jovens na epoca… com certeza é muito complexo e me lembro que achava muita barulheira, por isso não conheço tão bem o disco… não sabia que o Dave Holland tocava com ele, tenho um disco de 1998 dele que se chama Points Of View, é muito incrivel esse disco…

  2. Rodrigo Fróes Says:

    Cara, ótimo texto! Bem completo, contextualiza bem o disco e passa o seu conceito ao descrever a trajetória dele.

    Curiosidade: além da influência direta de Hendrix e Sly & The Family Stone, o que também orbitava em torno do Miles na época eram os Stooges, a banda original do Iggy Pop. Li sobre um episódio em que o Miles e o Johnny Winter foram a um show dos caras e este último ficou horrorizado com o Iggy Pop pulando pra cima da plateia, aquele circo todo. O Miles, por sua vez, ficou encantado. Era uma influência mais periférica, mais pela selvageria inerente ao rock do que pelo modo de tocar, como foi como Hendrix, mas acabou se agregando.

    Um abraço!

    Fróes

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